O tempo e o bombom


Eduardo Biavati
artigo publicado em Correio Braziliense em 25/09/2008

Não há cultura que dure para sempre, nem histeria sem fim. Há dez anos, muita gente julgava impossível que um motorista parasse diante de uma faixa de pedestre simplemente porque havia alguém atravessando-a ou sinalizando a intenção de fazê-lo. Isso não era coisa de Brasil, menos ainda de Brasília, onde reinava absoluta a cultura do automóvel. Nao é que mudamos essa cultura? O que dizer, então, da nova lei impondo a proibição de qualquer quantidade de álcool pelo condutor de veículos automotores?

Há poucas semanas, um Juiz (!) argumentou que a lei era uma agressão à cultura nacional, uma verdadeira afronta à união sagrada do “sol, futebol e cerveja”. Nisso o magistrado acertou: a nova lei ela exige uma revisão profunda de nossos hábitos de lazer e a verdade é que eles sempre incluíram o consumo de bebidas – MUITO CONSUMO. Sejamos honestos: antes dessa lei, ninguem bebia “socialmente”, “civilizadamente”, com “muito bom senso” – a não ser que estivesse doente. “Bom senso”, aliás, é uma daquelas coisas que vão justamente para o ralo quando se consome bebida alcoólica. Isso pode ser ótimo para quem bebe mas é inaceitável para quem terá que assumir a direção de um veículo motorizado.

A histeria contra a nova lei nao é contra a multa, o limite zero de alcoolemia, a ameaça da prisão, a submissão ao bafômetro, o constrangimento do flagrante. Tudo isso é apenas uma grande cortina de fumaça da hipocrisia dominante. O que está em jogo é a suspensão do MEU direito de dirigir o MEU carro do modo que EU bem entender, o que envolve, é claro, beber o quanto o MEU bom senso indicar que é seguro – “to na boa, nem bebi tanto assim”, “mal comi um bombom com licor” foram suas últimas palavras. Você se arruma todo no sábado de noite para sair com amigos e… pega um táxi? O que você faz com seu carro? E sua liberdade de ir e vir? Só falta, agora, ser parado em uma blitz e ter que mostrar o estepe do carro, os pneus carecas, as lâmpadas queimadas, o documento vencido, as multas não pagas… que história é essa de sair por aí produzindo provas contra si mesmo?? Essa lei é um absurdo, grita o histérico! E a ele se une o comércio de bebidas.

Bares e restaurantes dos quatro cantos do país apontam grandes quedas de vendas e ameaçam com liminares, piruetas jurídicas, desemprego em massa e falência. O que nos faz lembrar que talvez tenhamos bares demais e que o acesso à bebida nunca tenha sido objeto de regulação séria do Estado Brasileiro. Não me consta que os proprietarios desses estabelecimentos tenham alguma vez tido remorso de vender o que pudessem a quem quer que pagasse, não importando muito se eram um pouco “jovens demais”. Alguma vez, alguém se sentiu minimamente responsável quando um grupo de jovens largou uma mesa afundada entre garrafas vazias e saiu vomitando pela esquina nas madrugadas do final de semana? Não vejo por que nós, cidadãos, deveriamos partilhar,agora, a dor da “queda nos lucros”. Capitalismo é isso aí: há riscos e, às vezes, o interesse coletivo se impõe ao poder do dinheiro e às mentalidades mesquinhas.

É tempo de bares e restaurantes espelharem o exemplo de seus congêneres europeus e assumirem o papel de co-responsáveis pela segurança coletiva, tornando-se multiplicadores da prevenção de acidentes, capacitando seus funcionários a controlarem o consumo excessivo de seus clientes. O consumo responsável é, também, responsabilidade de que quem promove o consumo. O que importa realmente é que caminhamos rumo à consolidação de uma mudança cultural importantíssima que, em poucos meses, salvou a vida de centenas de pessoas e impediu a tragédia rotineira de milhares de acidentes, renovou a força e a presença da fiscalização nas cidades e rodovias, e nos levou a encontrar um novo ponto de equilíbrio em nossos hábitos de lazer, regado, assim como antes, a quanto álcool julgarmos inteligente beber. Quanto nos custou até agora essa mudança? Como era mesmo a vida em Brasília antes da faixa de pedestre?

© Eduardo Biavati e biavati.wordpress.com, 2008/2013.

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Publicado por

biavati

Sociólogo, escritor, palestrante e consultor em segurança no trânsito, promoção de saúde e juventude.

Um comentário em “O tempo e o bombom”

  1. Eduardo,

    A justiça sempre considerou o uso do álcool como um atenuante. Exemplo: se havia um assassinato e o executor encontrava-se sob efeito do álcool, isso era ponto a favor na sua defesa, sob a alegação de que não tinha consciência total de seus atos. O CTB muda isso ao associar álcool a agravamento.
    [ ]s.

    Marcos Evêncio

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