Violência, trânsito e jovens


O Ministério da saúde acaba de publicar um estudo que indica que a violência no trânsito está se deslocando das maiores cidades para as menores.

Em 1990, a taxa de mortes no trânsito nos municípios com até 20 mil habitantes (13 mortes por 100 mil hab.) correspondia à metade da registrada naqueles com população com mais de 500 mil pessoas (26 mortes por 100 mil hab.).

Em 2006, a situação se inverteu. Nas grandes cidades, a taxa passou para 15,8 mortes por 100 mil habitantes, enquanto nas pequenas, a taxa elevou-se em mais de 50% chegando a 19,7 mortos por 100 mil habitantes.
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Os maiores municípios ainda concentram 30% das mortes no trânsito no país, mas houve uma forte “migração” da violência para as outrora pacatas cidades do interior. Nelas, as mortes no trânsito cresceram a um ritmo até 8 vezes maior do que nas grandes cidades.

O crescimento da população nas pequenas cidades, de apenas 12%, não explica a explosão das mortes no trânsito verificada no período.

Para entender essa tragédia é preciso considerar outros fatores, a começar pela profunda transformação da composição da frota de veículos causada pelo crescimento do registro de motocicletas.

Não há cidade no país, em qualquer região, sertão ou litoral, que tenha ficado imune à invasão das motos. A cena urbana de São Paulo traduz a imagem imediata dessa revolução – o mar de motos disputando metro-a-metro o asfalto. Mas revolução mesmo aconteceu no interior, nos pequenos centros urbanos, onde as pessoas ainda se deslocavam tranquilamente a pé ou no ritmo lento da bicicleta ou no lombo do jegue-velho-de-guerra. As pessoas simplesmente largaram o jegue no mato, aposentaram a bicicleta, em prol do conforto, da velocidade e da economia inegáveis da motocicleta e ascenderam social e economicamente sobre duas rodas na escala da mobilidade.

A frota de Mossoró, Rio Grande do Norte, é feita hoje de motocicletas – eis o resultado. No interior do país, as motos passaram a representar 60, 70, 80 % do total de veículos: quase um processo de asianização do trânsito brasileiro. Vale lembrar: no Vietnã e em vários países asiáticos, 90% da frota é de motocicletas.

A frota de motocicletas cresceu muito mas, ainda assim, MUITO menos do que as mortes de seus pilotos e passageiros. Entre 1990 e 2006, o número de casos aumentou 2.152% – de 299 para 6.734.

O processo foi tão rápido que dificilmente a gestão pública do trânsito teria condições de intervir a contento. E não interviu mesmo, por uma razão simples: dos 5.500 municípios brasileiros, apenas 500 municipalizaram o trânsito, desde a promulgação do Código de Trânsito em 1997.

O clube dos 500 concentra a maior parte da população brasileira e 70% da frota nacional, mas apenas 30% do total de morte no trânsito. É certo que ficaram de fora desse clube praticamente todos os municípios com menos de 100 mil habitantes. Lá, onde as mortes dispararam, faltou uma autoridade pública local para lidar com o novo padrão de violência introduzido pelas motocicletas. Haveria, talvez, a ação eventual dos departamentos estaduais de trânsito DETRAN, por meio das Polícias Militares… Isso, sim, explica bastante coisa.

Para concluir, é muito consistente com esse quadro no interior a tendência de crescimento na proporção de mortes violentas nas regiões Norte e Nordeste, ao passo que no Sudeste e no Centro-Oeste o movimento foi inverso, verificada pelos dados do Registro Civil do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Mortes violentas são as motivadas por causas externas, em especial homicídios, suicídios e acidentes de trânsito. São mortes que afetam principalmente jovens do sexo masculino.

Em 2007, o IBGE registrou nas regiões Norte e Nordeste a maior proporção de mortes violentas entre homens desde 1990. No Norte, esse percentual chegou a 19% do total de óbitos registrados. No Nordeste, ficou em 14%. Isso fez com que as taxas dessas duas regiões se aproximassem das do restante do país.

No Sudeste, o percentual em 2007 de óbitos violentos foi de 15%. Ele representa uma queda em relação aos 17% em 2000, mas uma tendência de estabilidade quando se observa o dado de 1990, também de 15%.

No Centro-Oeste, a taxa observada para os óbitos masculinos em 2007 foi de 18%. O pico na série histórica da região foi observado em 1996, quando ficou em 22%. Em 1990, a proporção era de 20%.

O Sul foi a região onde a taxa ficou mais estável ao longo das duas últimas décadas, tendo estado sempre entre 13% e 15% – com poucas variações anuais.

Os Estados com maiores proporções de óbitos violentos foram Rondônia, com 28%, Mato Grosso, com 24%, e Espírito Santo com 23%. São Paulo apresentou a 11ª menor taxa.

As menores proporções foram no Piauí (9%), na Bahia (12%) e no Rio Grande do Sul (13%). Nos dois primeiros, porém, o IBGE alerta que há muitas mortes não registradas, o que diminui a real proporção.

© Eduardo Biavati e biavati.wordpress.com, 2008/2013.

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Publicado por

biavati

Sociólogo, escritor, palestrante e consultor em segurança no trânsito, promoção de saúde e juventude.

2 comentários em “Violência, trânsito e jovens”

  1. Concordo que o crescimento da violencia no trãnsito é resultado do aumento da taxa de motorização, principalmente da entrada da motocicleta como opção de transporte individual barato.

    É, sim, a asianização do trânsito brasileiro, mas não nas grandes cidades, onde a oferta de transporte coletivo e a própria organização do trãnsito acaba por desestimular o uso da motocicleta como veículo de carga ou da família, como se ve no Vietnam ou na Indonésia, mas nas cidades menores do interior, onde não há oferta de transporte coletivo e a administração da circulação é práticamente inexistente.

    Tem muita coisa para ser feita de forma a interferir neste aumento da violencia, inclusive envolver as comunidades destas cidades na discussão sobre qual o futuro que estão plantando para si, através de divulgação de informação e campanhas de esclarecimento sobre as consequencias de se optar pelo privilégio ao transporte individual.

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  2. a educação sempre faz a sua parte , a saúde sempre faz a sua parte e assim um vai dizendo como fazem e cumprem suas obrigações, agora não é mais hora de saber quem faz ou deixa de fazer, ta na hora de cada um agir, cada cidadão, agir por si, pela sua família, por um amigo, cabe a todos a responsabilidade de se ter uma cidade bonita, uma sociedade harmonica e um país digno de se encher o peito e dizer que somos brasileiros! a atitude de melhorar é sua! é nossa! o tempo? já passou da hora!

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