Formar condutores é educar para o trânsito?


Existe um elo fragilíssimo do trânsito no Brasil: a formação dos condutores de veículos. Isso não é assunto novo. A educação para o trânsito é filha legítima dessa necessidade primária de formar o condutor do veículo automotor e de formar todos a compreenderem a linguagem e a lógica de condução da máquina.

O Código de Trânsito vigente prometeu uma revolução conceitual nos processos de formação dos condutores e, de fato, transformou as antigas auto-escolas nos atuais Centros de Formação de Condutores (CFC), submetidos a um maior controle do Estado, por meio dos DETRANs. Houve revisão de conteúdos e de práticas e maior profissionalização das antigas auto-escolas, tudo isso de maneira muito desigual entre os estados da federação.

A qualificação da habilitação dos condutores, no entanto, não fez a menor diferença no que mais interessava, que era garantir a segurança no trânsito. Continuam morrendo pedestres atropelados, continuam morrendo condutores e passageiros em colisões de todo tipo e, sobretudo, quando ainda não aconteceu o acidente, o que se vê por toda parte é a transgressão aberta de todas as regras possíveis, por quase todos os condutores, e uma incapacidade grave mesmo na performance de condução, especialmente entre os motociclistas.

O tema é altamente sensível entre nós. Sensibilíssimo politica e economicamente. A posse de uma carteira de habilitaçao vale mais do que a de uma carteira de trabalho – estão aí o mototaxi e o motofrete para provar. Não deve causar surpresa, então, a dificuldade de controle do processo pelo Poder Público. Quantas vezes você ouviu falar em escândalos explodindo dentro dos DETRANs justamente nas áreas de habilitação? Venda de carteiras de habilitação? Fraude nos exames? Corrupção de examinadores? Tudo cheira a jornal velho, notícia antiga. Sempre foi assim? Será assim sempre?

Uma nova resolução (285/08) do Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN) exigirá, a partir de 1º de janeiro 2009, o aumento substancial das carga horária teórica e prática exigidas para a habilitação de condutores. A quantidade de aulas teóricas sobe de 30 para 45 horas/aula e as práticas de 15 para 20 horas/aula.

Haverá, certamente, um impacto econômico no custo da habilitação. Podemos esperar impacto correspondente na qualidade da formação? Condutores melhor preparados contribuirão para um trânsito mais seguro? Mais humano?

© Eduardo Biavati e biavati.wordpress.com, 2008/2011.

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Publicado por

biavati

Sociólogo, escritor, palestrante e consultor em segurança no trânsito, promoção de saúde e juventude.

9 comentários em “Formar condutores é educar para o trânsito?”

  1. Não existe diferença entre o ser humano que está no comando do veiculo, sejam aqui no Brasil ou no Exterior. Independente do local que habitemos, os nossos sentimentos, as nossas necessidades, serão muito semelhantes, em muitos casos, achamos que somos os melhores pilotos do mundo (esse achismo faz parte do ser humano independente de sua nacionalidade).

    Se todo Ser humano é muito parecido em suas necessidades, até mesmo para sua locomoção, então, porque os condutores aqui no Brasil são mais imprudentes? Será que podemos afirmar que eles não tiveram uma boa preparação? Será que temos leis menos rigorosas que outros países?

    Não creio que sejam as únicas razões para tantos acidentes com vitimas aqui no Brasil, acredito que se houvesse uma fiscalização mais bem preparada e bem equipada e em maior quantidade diuturnamente presente, orientando e fiscalizando o cumprimento das nossas leis, as quantidades de acidentes com certeza seriam equivalentes as quantidades de acidentes de outros países.

    Não vejo que seja só através da resolução (285/08) do Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN) que exigirá o aumento substancial da carga horária teórica e práticas exigidas para a habilitação de condutores, que irá reverter o atual quadro de acidentes e a diminuição da quantidade de vitimas, é preciso investir mais em pessoal para fiscalização, e em novas tecnologias e equipamentos de monitoramentos.

    Enquanto não houver um comprometimento maior de todas as etapas de preparação (educação nas escolas), formação (curso de CFC), e monitoramento dos condutores e pedestres (fiscalização), não será possível reverter a quantidade de acidentes e vítimas.

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  2. Essa é uma questão nevrálgica no que se refere à formação de condutores.

    Você pega uma pessoa que nunca dirigiu um carro antes na vida e ela tem algumas semanas para aprender a dirigir. Ok. Só que aprender a dirigir não é só dominar os fundamentos básicos, os comandos do carro. Outra coisa, que a meu ver, merece destaque, debates e uma intervenção urgente é quanto à metodologia de ensino de muitos instrutores: decora legislação, decora a velocidade de mudança de marcha, decora o número de voltas que tem de dar no volante, decora, memoriza, esquece.

    Administro uma comunidade no Orkut e modero outra relacionada a temas de educação para o trânsito e aprender a dirigir, e uma das perguntas mais frequentes é: que dicas você me dá para passar na prova prática? O objetivo é estudar as dicas e não reprovar no exame de direção. Mas eu pergunto: você estuda para dirigir todo dia? Claro que não. Então, o que quero dizer com isso é que o ato de dirigir tem de ser significativo para o aluno: no dia da prova, o ideal é dirigir como se dirige nas ruas sem esquecer o básico: dar seta, ter controle dos fundamentos básicos, etc… Ou seja, tornar a aprendizagem significativa para que o ato de dirigir se torne uma atividade de aprendizagem, que interessa e tem intencionalidade do aluno, e não só de ensino, que só interessa ao instrutor.

    Há que se conhecer o mínimo do perfil do aluno, porque ele quer dirigir, quais suas restrições, mas também as suas possibilidades. Mudar a metodologia de ensino para torná-la significativa. Quem sabe assim as CFC consigam formar condutores para o trânsito com um mínimo de conscientização sobre porque dar seta, porque ceder a preferencial, enfim, o porque da direção defensiva: mais do que para passar na prova, é para manter-se vivo no trânsito. Eu mesma, na primeira semana habilitada, me sentia com uma arma nas mãos. Muito mais se aprende no trânsito, sozinho, a duras penas, com tentativas e erros, fora das CFC. Por isso a importância de tornar a aprendizagem do ato de dirigir significativa.

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  3. Olá, Márcia,

    Esse aprendizado significativo NÃO é objetivo de um Centro de Formação de Condutores, como não era de seu antecedente, a auto-escola. Como a educação para o trânsito, em sentido mais global, não ocorre em lugar nenhum ou é absolutamente irrelevante no processo de formação do cidadão, quem sabe os CFCs não pudessem “suplementar” essa falha? Essa esperança não se concretiza, porém, a não ser por uma ou outra iniciativa individual de certos instrutores. O CFC é apenas um curso preparatório para as provas exigidas pelo Estado para a concessão da CNH. É só isso que se exige, é só por isso que se paga. É um comércio como qualquer outro. Quando as exigências, o rigor e a qualidade delas, mudarem, mudarão os CFCs.

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  4. Oi Biavati,

    Pertinente sua colocação, mas em se tratando de educar para o trânsito, será que o aprendizado significativo nas CFC, melhorando a metodologia, tornando a aprendizagem dos fundamentos técnicos da direção, não teriam implicações para a formação do condutor? Embora não seja missão ou tarefa ou obrigação das CFC fazê-lo, não seria uma forma de sensibilizar para uma formação mais completa do condutor no sentido de educá-lo para o trânsito?

    O que mais se critica é o tipo de formação que as CFC dão aos condutores, mas, na minha opinião, se o objetivo fosse só preparar para passar nas provas e pegar a CNH, não estaria de acordo com o termo formação, que é mais amplo. Infelizmente, é o que acontece: um comércio, concordo. Penso que a didática dos instrutores e a filosofia das CFC, em muito, contribui para sensibilizar o aluno à conscientização necessária para o domínio dos fundamentos práticos e as atitudes defensivas no trânsito.

    Me soa uma via importante para a mudança maior que buscamos, pois hoje não se educa para o trânsito nas CFC. De acordo. Mas sendo um lugar para aprender a dirigir e para formar condutores, não seria, também, um parceiro importante para o processo educativo maior? Aquele que deveria começar em casa, se complementar na escola, se perpetuar pelo exemplo e ser próprio dos cidadãos e condutores críticos e conscientes? Veja: estou partindo de uma realidade que não existe para a que deveria existir ou se espera que exista. Qual sua opinião?

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  5. Oi, Márcia,

    Eu acompanhei desde o princípio os debates que resultaram na proposição dos CFCs no atual Código de Trânsito. Os Centro de Formação de Condutores deveriam proporcionar um salto qualitativo em relação às velhas estruturas das auto-escolas. Novos conteúdos e uma carga horária substancialmente maior, além de novas exigências de formação dos instrutores e qualificação dos diretores de ensino, deveriam produzir uma geração melhor de condutores.

    Qual deveria ser o elo de rigor do processo? O controle dos departamentos estaduais de trânsito. Mas eles sempre foram o núcleo da corrupção do sistema! Continuam sendo, compram-se CNHs com tanta facilidade quanto antes e tudo indica que os DETRANs não poderiam ter imposto um alto padrão de exigência das provas teóricas e, sobretudo, das provas práticas. Deveria ser dificílimo ser aprovado em uma prova prática, tal como acontece na Inglaterra e na Alemanha. Deveria ser igualmente difícil a prova sobre as regras, as sinalizações e sobre a conduta ética dos condutores. Nada disso acontece, é claro, e o CFC apenas reflete a frouxidão e a farsa que é o processo de habilitação no Brasil.

    Por isso eu discordo da crítica de que o CFC deveria ser outra coisa, ser o que ele não é, ser o que todo o sistema não espera dele. Agora, seria bom que ele fosse outra coisa? Não. A função de educar para o trânsito pertence a outras instituições, que possam desenvolver o entendimento do tema de forma crítica e articulada aos vários campos do saber. Na escola, é possível construir um entendimento transversal do trânsito ao longo da formação do jovem. O corpo técnico dos CFCs não tem competência para essa tarefa e lidam com uma parcela mínima dos usuários do trânsito no Brasil.

    Devemos lutar para que o sistema de ensino incorpore esse tema, ao invés de imaginar que os CFCs possam remendar as coisas no momento final da habilitação.

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  6. Olá, Biavati,

    Obrigada por responder ao post e pela oportunidade do espaço democrático e das ricas interações.

    Sim, sim. Eu contextualizei os CFC de uma maneira que pareceu isolada do contexto holístico que o tema requer que seja apreciado. Concordo com você que a educação para o trânsito começa de berço e penso que deveria ser tratada como tema transversal nas escolas, assim como se faz com ética e meio ambiente, mesmo porque são temas que se enfeixam. Experiências e vivências já na Educação Infantil, adequando as abordagens para as etapas seguintes da Educação Básica.

    Pelo muito que lê, se vê na mídia e, em alguns casos, se testemunha, das CFC desde a nomenclatura de autoescola tem sido isso: comércio, fraudes de vendas de CNH e outras histórias mais. Mas, essa é só uma faceta do perfil poliédrico dos CFC. Também acredito que seja difícil, o que pode soar até utópico, conseguir o engajamento dos CFC num projeto maior de educação para o trânsito, complementando as ações das instâncias competentes onde ela deve acontecer. Acho que não me fiz entender, pois não penso que os CFCs possam ou devam remendar as coisas no momento final da habilitação. Educação para o trânsito, na minha opinião, começa de berço, necessita ser incluída nos currículos escolares, nem que de início seja como tema transversal, para assim que se atinja um nível de amadurecimento cultural, político e pedagógico possa ser trabalhada de forma inter e metadisciplinar. Construir valores éticos e positivos em relação ao trânsito, com assunção de nossas responsabilidades. Essa é a saída e o grande desafio.

    Novamente, muito obrigada pela oportunidade de interação e pelas aprendizagens. Se vc puder disponibilizar os arquivos em PDF de suas palestras e trabalhos, em muito vai acrescentar à minha formação. Um abraço

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  7. Olá, Márcia,

    Essa concepção sobre os Centros de Formação de Condutores está equivocada. Não existe esse “perfil poliédrico” nos CFCs – isso não está contido nem nos conteúdos, nem na qualificação dos instrutores, nem nos exames exigidos para a obtenção da CNH.

    Isso não quer dizer que um CFC isoladamente, por iniciativa de seus diretores – por um ato de vontade – não possa extender os conteúdos obrigatórios, reorganizar a carga horária, e incorporar uma reflexão sobre as regras de trânsito e sobre a cidadania no espaço público. A boa ação representaria o engajamento do CFC com a educação para o trânsito? Não, representaria apenas que esse CFC faz mais do que lhe é exigido formalmente e que seus alunos têm mais conteúdo pelo que se paga. Muito bem!

    O engajamento verdadeiro dos CFCs e das federações que os reunem com a educação para o trânsito significaria ir muito além de beneficiar seu público de futuros condutores – eles formam um público minúsculo da população brasileira. Os CFCs deveriam sair de suas quatro paredes e investir recursos em projetos e atividades propostos por professores e alunos nas escolas. Então, ao invés de se preocuparem em formar bons condutores os CFCs demonstrariam que a segurança de todos depende de formar também pedestres e ciclistas solidários e promoveriam a mobilização da comunidade escolar, os pais incluídos, em torno da segurança coletiva no trânsito.

    Em 15 anos de atuação profissional, entretanto, eu nunca vi uma única iniciativa desse tipo.

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  8. Olá, Biavati,

    É aí onde eu queria chegar. Me embolei pelo caminho, mas é justamente aí nesse ponto que vc tocou por último: “os CFCs demonstrariam que a segurança de todos depende de formar também pedestres e ciclistas solidários e promoveriam a mobilização da comunidade escolar, os pais incluídos, em torno da segurança coletiva no trânsito.”

    Lontano, longinho, distante da realidade, reconheço, mas quem sabe uma via escolhida por empresários de visão desse segmento comprometidos com a segurança no trânsito.

    Muito obrigada pela oportunidade do diálogo, de criticizar a realidade e pelas aprendizagens. Parabéns, seu blog está demais!

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  9. Pois bem, Márcia,

    Eu iria escrever para esclarecer, mas você entendeu perfeitamente.

    Eu não quis dizer que não se deve fazer nada. Pelo contrário, seria excelente uma ação efetiva dos Centro de Formação de Condutores na ampliação dos conteúdos restritos. Essa é uma ação de disseminação de conceitos mais amplos de cidadania e de sensibilização para uma condução segura; não se trata, porém, de uma “complementação” da educação para o trânsito, que aborda muitos outros temas para atores diversos.

    Muito melhor e mais justa socialmente seria essa ação NA escola e não apenas para os alunos dos CFCs nem limitada à formação dos condutores de veículos motorizados. Como categoria empresarial, eu gostaria de ver o investimento das federações promovendo a implementação de projetos pedagógicos propostos pelos próprios docentes da rede de ensino. Quando chegarmos a esse ponto, eu estarei pronto para colaborar.

    Obrigado pela participação. Esse espaço existe para isso mesmo, embora muitos sejam os leitores, poucos os escritores. Abraço, Biavati

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