17 anos. Ora, o que são 17 anos?


airbag deployment Nosso subdesenvolvimento nem sempre é uma coisa ruim.

Recolhidos a uma posição periférica em termos científicos, culturais e econômicos, temos a sorte de assistir ao sucesso ou fracasso das inovações tecnológicas d’além mar com tempo bastante para tomar uma decisão bem fundamentada, bem filtrada, depurada mesmo, sem essa de maria-vai-com-as-outras. Estamos sempre muitos passos atrás e isso nos permite amolecer os rigores, arredondar as formas, adocicar a polpa das idéias. Que boa coisa!

Vejam só o caso dos airbags. Em 1993, quando se iniciaram os trabalhos da Comissão Especial, na Câmara dos Deputados, que daria forma ao futuro Código de Trânsito, airbags eram uma revolução saída dos laboratórios da Volvo Sueca e da Mercedez-Benz. Coisa de carro de luxo, obviamente. Como mal usávamos cinto de segurança por aqui, pensar em airbag como equipamento de segurança obrigatório soava bem estranho e, assim, a idéia morreu cedo nos debates.

Em poucos anos, o equipamento inovador já havia se disseminado pela indústria automobilística mundial e, em 1999, tornou-se ítem de série obrigatório nos carros norte-americanos, depois de anos de teste e pesquisa patrocinados pela poderosa National Highway Traffic Safety Administration (NHTSA).

Começamos o novo milênio descobrindo que os airbags eram sensacionais, que eles realmente suplementavam a segurança proporcionada pelo uso do cinto de segurança, que eles reduziam com grande eficiência lesões faciais e de cabeça – coisa de primeiro mundo!, se dizia na época. Mas para quê sair por aí imitando europeus, japoneses e americanos? Quem éramos nós para arcar com o custo altíssimo de tanta tecnologia?

Os airbags tornariam os carros IN-VI-Á-VEIS, sempre alarmou a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA). Era tempo de popularizar o acesso ao automóvel nessa naçao de pedestres – o fusca ressucitado, os carros 1.0. Como não havia quem se alarmasse com os custos igualmente IN-VI-Á-VEIS das vítimas de trânsito nas emergências públicas e nos centros de reabilitação, ficava tudo como estava.

Nem por isso o assunto sumiu dos corredores do Congresso Nacional. Propor alterações ao Código de Trânsito é quase um hábito do parlamento brasileiro, uma espécie de esporte, o que nos revela o quanto o assunto é sensível e relevante para a democracia. Em 2005, enfim, o Senador Eduardo Azeredo (PSDB/MG) deu o pontapé para o início da tramitação da proposta que alteraria o Código para a inclusão do airbag como equipamento de segurança obrigatório nos carros nacionais.

Começou, então, um longuíssimo debate, aberto às vozes das bases (que bases?) e das cúpulas (leia-se ANFAVEA), consultas, audiências, votações, depois tudo de novo na Câmara dos Deputados – tudo em nome da informação mais precisa, das ponderações mais técnicas, visando informar o voto consciente de cada representante das duas câmaras. Para que pressa, se o que está em jogo é a democracia?

Finalmente, em 19 de março de 2009, o Presidente Lula sancionou a lei que incluiu o airbag na  lista de equipamentos obrigatórios para os veículos. As bolsas infláveis agora fazem companhia ao encosto de cabeça, cinto de segurança e dispositivos de controle de emissão de gases poluentes e de ruídos.

airbag deploymentMas espere. Para que a pressa, companheiro? Agora que já decidimos que teremos airbags, é preciso decidir como e quando teremos airbags. Segundo as fabricantes, o item equipa de 20% a 25% dos veículos novos vendidos no País, a maioria sedãs médios. Para carros compactos, o porcentual cai para 6%. Neste ano, cerca de 530 mil automóveis serão vendidos com airbags, de um total aproximado de 2,8 milhões de veículos previstos para todo o País.

Só porque se passou uma década, nao quer dizer que a indústria automobilística tenha conseguido superar sua incapacidade de absorção dessa tecnologia tão sofisticada. Podemos até começar a produzir alguma coisa aqui, mas isso não pode ser exigido assim, de uma hora para outra! Vocês querem enterrar de vez a industria nacional? Logo agora que as matrizes estão à beira da bancarrota?

O mais incrível é que essa chantagem dos fabricantes é a mesma há mais de 10 anos – a ANFAVEA sempre repetiu a mesma coisa, os mesmos valores (!), os mesmos percentuais: os airbags acrescentarão 10% ou mais do custo final do veículo!, vai ficar inviável ter um carro no Brasil!, as vendas cairão!, o desemprego aumentará! Por que obrigar todo mundo a comprar um carro com airbag? Não seria melhor deixar o consumidor optar por ter ou não os sistemas em seus veículos?

Apressado come cru, como dizia minha avó. Sejamos ponderados. As montadoras terão um prazo de CINCO (5) ANOS para se adaptarem à nova legislação, de modo que até 2014 todos os veículos zero-quilômetro vendidos no País serão equipados com a famosa bolsa inflável. O Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN) definirá especificações técnicas e um cronograma de implantação  [arquivo em PDF] ES-CA-LO-NA-DA da novidade.

Bem-vindos, então, os airbags! Antes tarde do nunca… dirão os resignados, que bem poderiam aproveitar esse momento para consolar as famílias dos 5.500 mortos e um número muitas vezes maior de incapacitados físicos que terão se acumulado nessa espera de 17 anos, desde que passou a valer o atual Código de Trânsito até 2014.

17 anos é a medida da fraqueza de nossa sociedade civil e da pequenez de nossa cidadania. Poder é uma coisa que não admite vácuo; não nos fazemos valer, alguém o faz por nós. Ainda bem, não é?!

© Eduardo Biavati e biavati.wordpress.com, 2008/2013.

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Publicado por

biavati

Sociólogo, escritor, palestrante e consultor em segurança no trânsito, promoção de saúde e juventude.

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