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Cubo Mágico


Rubiks_CubeNo final do século passado foi lançado um brinquedo sensacional – um simples cubo de plástico com cores diferentes para cada um dos seus lados. O cubo era feito de partes que giravam, embaralhando completamente as cores. Era irresistível misturar tudo e mais ainda vencer o desafio de reconstituir cada lado com uma única cor. Nunca vencia quem olhasse apenas um lado do cubo, caçando as peças daquela única cor; o cubo ensinava a pensar de vários ângulos simultaneamente e a encontrar uma solução coordenada e sincrônica para o problema. O desafio do cubo é exatamente o que está em jogo hoje quando pensamos a “educação para o trânsito”.

Durante muito tempo, o esforço da “educação de trânsito” foi o de formar bons seguidores de regras – as regras do código. Por mais inventivas que sejam ainda hoje as atividades com as crianças – teatro, fantoche, jogos, mini-cidades – tudo converge para esse aprendizado da regra. Se todos soubessem a regra desde pequenos, não teríamos problemas no futuro, pensava-se olhando sempre para um único lado do cubo.

O que aconteceu com aquela criança aos 15 anos? Esse jovem questionará a regra do uso da faixa de pedestre ali onde não houver faixa alguma para atravessar, assim como questionará a obediência ao sinal vermelho que ninguém respeita de noite. Ele perceberá inevitavelmente que muito pouco impede a transgressão das regras e a imposição do interesse individual sobre o ordenamento coletivo – o uso do celular, a velocidade, o uso do cinto, a moto no “corredor”.  Para que serve, afinal, obedecer a regra?

É bom pensarmos rapidamente como abordar essa questão porque as motocicletas massificaram a motorização dos jovens em todo país. Para eles, será necessário um novo discurso. Que tal revelar que a regra tem um fundamento superior, que é a proteção do corpo, da integridade de todos e cada um, que somos reféns de uma mesma fragilidade humana? Então, passaríamos da discussão da regra para a apresentação do que é essa fragilidade, falando, por exemplo, do nosso Sistema Nervoso Central, do cérebro, da medula espinhal, do que é uma lesão cerebral ou uma lesão medular. E desembocaríamos, assim, na questão da incapacitação física que a violência do trânsito produz e poderíamos falar de nossa responsabilidade na inclusão do incapacitado físico.

Esse é um caminho, há outros, mas vale a lição de que devemos aprender a falar de trânsito olhando para além dele, conectando outras dimensões do problema, assim como fazíamos quando tínhamos o cubo nas mãos.

artigo publicado em Correio Braziliense , Caderno Especial Educação no Trânsito [arquivo em PDF], em 09/04/2009.

© Eduardo Biavati e biavati.wordpress.com, 2008/2013.

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Publicado por

biavati

Sociólogo, escritor, palestrante e consultor em segurança no trânsito, promoção de saúde e juventude.

15 comentários em “Cubo Mágico”

  1. Muito bom. Após tê-lo ouvido falar por diversas vezes, o que é muito gratificante, tenho aodtado esse discurso em todo o lugar que vou e tenho oportunidade de falar sobre o trânsito, principalmente sobre motos e motociclistas que simplesmente usam o capacete como um chapéu. Pois não o fixam na jugular, o que inevitavelmente irá sair de suas cabeças em uma queda e os levará, senão a morte, a uma grave lesão cerebral. Então os lembro que o uso do capacete não é para apenas escapar de uma multa, mas para salvar sua vida. Parabéns Eduardo.

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  2. Eduardo
    Muito apropriada a analogia que vc fez entre cubo mágico e educação para o trânsito. Em relação à segurança de motociclistas serve também para dimensionar o tamanho do desafio de encontrarmos soluções efetivas. Neste caso, ajustar uma cor do cubo já é difícil, pior é conseguir fazer isto sem bagunçar todo o resto.

    bjos

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  3. É sempre maravilhoso ler seus artigos. parabéns! precisamos ser agentes de transformação, e garantir para nossos filhos e netos um trânsito melhor. A cada dia sinto-me mais responsável por este tema “Trânsito”, e o que mais me impressiona é que infelizmente este tema ainda é cheio de ingerencias políticas, sai uma resolução fantástica mas se “mexe” com interesses de pessoas “graudas” logo cai por terra, e mais pessoas estão morrendo e ficando deficientes. Muitas regras são locais e não nacionais, ex: em goiânia fizeram uma linda campanha sobre o uso da faixa de pedestre, quando vou a Uberlândia quero tambem respeitar esta faixa e o pedestre, quando paro sempre tem alguem que quaze bate no meu carro e ainda fala umas palavras não muito agradáveis de serem ouvidas. Mas não podemos desaminar diante de tais fatos, vamos sim lembrar do tempo em que ficávamos horas e horas tentando montar o nosso “cubo” e era uma grande alegria quando conseguíamos, assim é o nosso dia a dia na luta por um trânsito melhor, é um trabalho de formiguinha mas é gratificante quando conseguimos que as pessoas do nosso convívio reflitam e passam a ter atitudes diferentes quando estão ao volante e mesmo quando são meramente pedestres. Um abraço a você Eduardo, continue sua luta e conte sempre comigo.

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  4. Achei seu blog por acaso na internet. Tem um site muito bom que mostra a solucão completa do Cubo Mágico de Rubik, com imagens ilustradas, downloads, apostilas, resumos e muitas dicas sobre o assunto. Finalmente consegui montar o cubo mágico! Nunca pensei que fosse conseguir, mas o site me ajudou a realizar um sonho de infância!

    Links: http://cubomagico.sytes.net
    http://www.cubomagico.k6.com.br

    Parabéns pelo blog, nota 10!!!

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  5. Adoro o jeito como vc executa suas palestras, tive o prazer de assistir a uma aqui em Fortaleza, Seminário Internacional de Trânsito. Vc encanta a todos. Sua maneira de abordar a questão do uso do cinto no banco de traseiro, é de fundamental importância para salvar vidas.
    Ana Cleide BB

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  6. Olá, Ana Cleide,

    Bemvinda ao blog! Muito obrigado pelos elogios. A informação transforma, essa é a força das palestras. Ainda hoje as pessoas me dizem: “eu nunca imaginei que acontecia isso lá atrás sem cinto”. Essa descoberta é um resultado importantíssimo e eu acredito muito nele. Abraço,

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  7. Eduardo, interessante a visão sistêmica. Lembrando que estamos realmente interligados e integrados. A diferença entre o cubo mágico e o trânsito é que no cubo, uma mão faz a regência de todas as ações. No trânsito, são muitas. Como fazer com que tudo esteja em harmonia?

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  8. Oi, Audea,

    Bem vinda ao blog – ao menos a esse pedaço de pings e pongs.

    As mãos que giram as cores do cubo expressam apenas uma regência superior a elas, que é produto do trabalho sistêmico, não-linear, e sequer completamente decifrado, dos poderosos neurônios. Esse trabalho cerebral infinitamente complexo é aqui uma metáfora imperfeita, um lembrete de como é pobre o olhar convencional da educação para o trânsito.

    Nunca teremos tudo em harmonia, porém – a segurança no trânsito é sempre um acordo provisório entre forças políticas e campos do conhecimento muito distintos, e às vezes abertamente conflitantes, entre si. Buscamos uma convergência, o maior número de pontos de diálogo que nos permitam fazer juntos a maior parte das ações, maximizando os recursos limitados de que se dispõe. Não espere que os entendimentos de educadores, engenheiros, policiais, juízes, jornalistas, etc. um dia seja um único.

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  9. Eduardo, concordo contigo e acho seu pensamento altamente reflexivo e pertinente. A convergência de todas as forças é praticamente impossível. A disputa pelos espaços públicos está na proporção direta da disputa de poder que ocorre nos espaços coletivos. Continuo pensando que os educadores não são alheios a essa visão sistêmica, o sistema, sim!

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  10. Olá, Audea,

    Prepare-se para descobrir que os educadores são MUITO alheios a essa visão sistêmica. Do contrário, teríamos tido sempre muitos educadores e gestores da educação nas platéias dos numerosos encontros que a comunidade de trânsito promoveu nos últimos 15 anos, pelo menos. Mas eles, os educadores, raramente estavam lá, por total desinteresse ou por falta de convites formais e burocráticos. Abertos a todos, os eventos sempre foram.

    Faltaram educadores, como faltaram quaisquer gestores de muitos outros setores da administração pública (fazenda, trabalho, juventude etc.), bem como representantes da sociedade civil ou religiosa. Eventualmente, encontravam-se alguém da saúde e, hoje, eles dividem o público, em uma trajetória que se confirmará hegemônica no futuro: a saúde lidera a “Década”, não apenas operacionalmente, mas conceitual e cientificamente. A temática ampla da violência do trânsito pertencerá cada vez menos à área do “trânsito”.

    Os educadores mantém um silêncio geral sobre tudo isso, denunciando o vazio de sua autoimagem de revolucionários e de “soldados” de Paulo Freire. Os educadores recitam Paulo Freire, invertendo, porém, substancialmente seu materialismo dialético: as idéias antes das ações. Não acredito que eles sequer percebam a inversão, mas ela é muito nítida no moralismo dominante da “educação para o trânsito” – um empreendimento moral que teme colocar os pés no chão do mundo objetivo do embate político de transformação do espaço público. A “educação para o trânsito” é um discurso de Estado, e isso explica muito de seus limites estreitos.

    O processo em nada dispensa os educadores e a educação, porém. Ao contrário, sem a adesão desse corpo de profissionais avançaremos com muito mais lentidão na direção de uma mudança. O que estou dizendo é que, hoje, falta completamente uma visão sistêmica a esses possíveis aliados, falta-lhes, antes de materiais incríveis de todo tipo, compreender o problema da violência da qual eles próprios são cúmplices.

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