A escola e seu umbigo


No último domingo, 10 de maio, o jornal O Estado de São Paulo publicou no Suplemento Aliás uma excelente entrevista do pedagogo Lino de Macedo, professor titular de Psicologia do Desenvolvimento da USP e membro da Academia Paulista de Psicologia, à jornalista Flávia Tavares.

Macedo foi um dos formuladores do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) e identifica as várias dimensões desse imenso e desconfortável descompasso entre a escola e o aluno. Para o autor de Ensaios Pedagógicos – Como Construir uma Escola para Todos? (Artmed), “a escola está voltada para o próprio umbigo, não olha para o aluno real, que está na sala de aula, e não tenta compreendê-lo“.

Aproximar o conteúdo programático do cotidiano do jovem é uma das soluções possíveis e acredito que é justamente esse o potencial de uma nova educação para o trânsito, que transforme o tema em eixo de problematização do mundo em que se vive, da violência sistemática que nos atinge e, mais ainda,  o jovem real em seus movimentos de exploração do mundo e de constituição de suas redes sociais, reais e virtuais.

Não há porque esconder a violência se ela é constitutiva do universo em que está mergulhado o jovem. Ao contrário, é preciso falar dela, das rupturas iminentes do corpo que ela representa e de seu limite máximo, que é a morte, para abrirmos a perspectiva de uma abordagem transversal sobre o trânsito, como procurei apontar no post Cubo Mágico.

O ENTRONCAMENTO

O ensino médio é o primo pobre da educação no Brasil. Pensemos na divisão do ensino: temos a escola básica, que é formada pela infantil, pela fundamental e pelo ensino médio, e temos a graduação e a pós. De todas, a que mais se malha é o ensino médio, que é um entroncamento de três funções importantes. Uma delas é a de abrir as portas do mundo do trabalho para o aluno. O jovem tem consciência de que ter o diploma e dominar o conteúdo é condição mínima para ele ter um emprego. A outra função é preparar para a faculdade. E a terceira é completar a educação básica e, nesse sentido, o ensino médio é uma escola terminal, porque conclui um ciclo. Para a maioria dos jovens, essa vai ser a última etapa da escolaridade. Quando analisamos como eles estão se despedindo da vida escolar, os resultados são muito negativos.

AULA DE DECEPÇÃO

“Os pais levam a criança para a educação infantil cheios de esperança, de expectativas da vida que ela vai ter. Na escola fundamental, já aparecem problemas, mas ainda existe um caráter de preparação, de aspiração. Quem sabe o aluno do ensino médio não está apenas denunciando a decepção com um sistema de ensino em que ele depositou suas maiores esperanças? Todo mundo só vê o que o aluno não tem, não faz, não dá conta e o que ele consegue fazer é pouco valorizado. Sempre foi e está cada vez mais difícil ser adolescente. Dele são exigidas coisas de adulto, para as quais ele não tem interesse nem repertório – ele está preocupado com sua inclusão em grupos, sua iniciação sexual, seus sonhos. Então, os adolescentes têm muitas decepções com essa escola que não olha para ele, que não é feita para ele, não é pensada com ele.

COMPETÊNCIAS E HABILIDADES

“A educação básica tem de desenvolver competências e habilidades nos alunos. Os conteúdos disciplinares são esquecidos meses depois do vestibular. O que sobra da educação básica é o que o sujeito aprendeu como disciplina no sentido de habilidade e competência para fazer o melhor possível em determinada situação, saber tomar decisões. É importante que o jovem saiba demonstrar um teorema, argumentar, ler uma fórmula, fazer um cálculo mais sofisticado, ler e interpretar um texto, trabalhar com escalas, grandezas, etc. De certa forma, pensar por áreas de conhecimento – exatas, humanas, biológicas – como na proposta do MEC é sair do conteúdo disciplinar e entrar nos raciocínios, nos modos de pensar. Só que os professores não estão preparados para essa complexidade.

VIDA DE PROFESSOR

“De todos os professores, os do ensino médio são os mais sacrificados. Para ter um salário razoável, ele precisa dar muitas aulas e chega a ensinar 600 alunos, não consegue nem como saber o nome deles. Ele não dá aula, dá palestras. Por isso, as áreas de conhecimento podem facilitar seu trabalho, para que eles tenham menos alunos. Mas, se o conteúdo disciplinar já é mal dominado por muitos, imagine as áreas… É necessária uma visão de interdisciplinar. Esse raciocínio já existe em algumas escolas, quando se trabalha com projetos. Quando uma turma elabora um jornalzinho, por exemplo, tem de pensar em texto, economia, biologia, etc.

DIVERGÊNCIA DE INTERESSES

“Os protagonistas da educação têm interesses diversos. O adolescente vive uma problemática psicológica de atravessar um período turbulento, que é ao mesmo tempo a época em que mais se sonha e mais se quebra a cara. Do ponto de vista cognitivo, ser adolescente é ter uma estrutura mental que permite compreender coisas mais complexas do que o da criança. Do ponto de vista físico, a pessoa se torna adulta, com todas as implicações disso. Já o interesse da escola é ensinar conteúdos, disciplinas, e formar alunos que se saiam bem no Enem. O governo foca em preocupações econômicas e políticas. Por fim, a família cria muita expectativa sobre esse jovem, muitas exigências. A questão é como coordenar esses diferentes interesses.

ENCONTROS E DESENCONTROS

“A sociedade de hoje é a sociedade do conhecimento e da tecnologia. Há coisas que o jovem quer aprender e para as quais não precisa de professor, pode recorrer ao computador. Mas há coisas que ele só aprende na escola. Veja, o jovem nunca escreveu tanto como hoje, no MSN, no Orkut, no Twitter, mas nunca escreveu tão mal. A escrita dos jovens na internet é completamente desvinculada daquela que a escola valoriza. Esse é um dos desencontros. Outro exemplo: o adolescente se interessa imensamente pela biologia do corpo humano, claro, mas não aquela dada pelo professor na aula da manhã. Os jovens querem aprender temas que dialoguem com seu cotidiano. A escola está muito voltada para o próprio umbigo. Ela só se preocupa com aquilo que precisa ser ensinado, com o conteúdo programático, fica centrada nas exigências que ela mesma faz e está pouco articulada com os recursos cognitivos e socioafetivos do aluno.

O ALUNO É EXIGENTE

Para falar a língua do aluno, a escola não precisa baixar o nível. Aliás, os jovens não gostam que o nível caia, não gostam de professor fraco. Eles sonham com uma profissão melhor ou tão boa quanto a dos pais – e isso é aflitivo para eles, inclusive. Então, um professor que manje bem da matéria, tenha autoridade, saiba falar, estabeleça contato e sintonia com o adolescente é respeitado e reconhecido. O professor fraco e pouco motivado é tripudiado. O aluno fraco gosta e precisa de um professor forte e sabe reconhecê-lo. A não ser aquele aluno que já entrou malandro no sistema, querendo só o diploma. Mas isso é uma ilusão, diploma não basta a ninguém. Outra figura que é menosprezada, mas é fundamental, é o diretor. Escolas que têm um diretor motivado têm desempenho muito superior àquelas em que o diretor é fraco e ausente.

OS VALORES NO TEMPO

O currículo precisa ter um olho nas disciplinas e outro na vida. E responder ao aluno a pergunta: o que vale a pena aprender na escola? Vale aprender coisas que têm valor passado e futuro. Por exemplo, ler e escrever, argumentar, ordenar, categorizar, relacionar, cuidar da saúde, tudo isso tem valor há milhares de anos. E continuará sendo bom por mais tantos milênios, mesmo que a forma de fazer isso mude. A escola está comprometida com o passado e o futuro da sociedade, mas num presente que faça sentido para o aluno. O problema está aí. A escola se preocupa com o passado e o futuro e esquece o presente. Olha e não enxerga o aluno.

VIOLÊNCIA INTRAMUROS

Não é que os alunos, os professores, os diretores sejam violentos. A sociedade é violenta. E na escola isso também se apresenta. A escola, seja pública ou privada, é um grande centro de relações humanas, com tudo que isso tem de lindo e de feio. Ela é um grande espaço sociocultural. A sala de aula pode não ser interessante, mas a escola é quase como um clube. É onde eu faço amigos, arrumo namorada, bato papo, mostro minha barriga sarada. Rola de tudo na escola, mais do que em qualquer shopping center. Os casos de violência que devem ser vistos com atenção são aqueles em que o aluno só é violento na escola. Agora, o professor tem de incorporar o tema violência ao currículo. O tempo que ele gasta falando de respeito, de cidadania, de disciplina tem de ser considerado ensino. Não pode ser visto como perda de tempo. Tem de ser validado.

Publicado por

biavati

Sociólogo, escritor, palestrante e consultor em segurança no trânsito, promoção de saúde e juventude.

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