O carona


A Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) apresentou os resultados de uma nova pesquisa [arquivo PPT] com 1.034 jovens universitários do Rio de Janeiro e de São Paulo, com idade entre 18 e 30 anos, sobre os hábitos de beber e dirigir e sobre o uso do cinto de segurança.

A pesquisa revela uma mudança importante de comportamentos diretamente relacionada à “Lei seca”. Em 2007, 36% dos jovens afirmava que não misturava bebida e direção. Em 2008, esse era o comportamento alegado por 37% dos universitários. O salto aconteceu ao longo do primeiro ano da lei de alcoolemia zero: na pesquisa de 2009, 50 % dos jovens afirma que não dirige após beber.

A aprovação da “Lei seca” é praticamente absoluta tanto entre jovens cariocas (83,3%) como paulistas (87%), mas a adesão à nova regra não tem sido suficiente para garantir a segurança da maioria deles.

O principal alerta da pesquisa é que mais de 80 % dos jovens que afirma não dirigir após beber embarca em uma carona com amigos que beberam, no retorno das baladas.

Ninguém entendeu que o álcool é um fator determinante dos acidentes de trânsito? Quase ninguém, pelo que indica a pesquisa da SBOT. Beber e não dirigir não é, portanto, uma atitude de segurança. Tornar-se passageiro de alguém que dirige depois de beber deveria ser inaceitável para alguém que se absteve de dirigir justamente porque bebeu. Mas não é assim que pensam os jovens paulistas e cariocas.

Essa inconsciência do risco é muito anterior à “Lei seca” e, é claro, não é exclusividade dos jovens. O uso do cinto de segurança pelos ocupantes dos veículos é outro velho exemplo de como lidamos mal com nossa segurança.

Um dos maiores avanços do trânsito brasileiro foi a adoção obrigatória do cinto de segurança – um hábito que tinha tudo para não dar certo e conquistou uma adesão nacional praticamente absoluta. A pesquisa da SBOT confirma, mais uma vez, que temos conseguido reproduzir nas novas gerações essa adesão: praticamente todos os jovens pesquisados afirmam usar sempre o cinto de segurança nos bancos dianteiros (93% quando são passageiros, 96% quando são motoristas).

Se é importante usar o cinto nos bancos dianteiros, se a pessoa entendeu que sua vida pode depender desse mecanismo em um acidente, por que não seria igualmente importante usá-lo no banco traseiro do carro? Essa é uma boa pergunta para os universitários. A resposta é a seguinte: a carona no carro dos amigos bebedores não está associada a grandes riscos, ao menos nenhum que valha a pena o uso do cinto de segurança – 74 % dos universitários pesquisados nunca utiliza o cinto no banco traseiro dos veículos.

Eis aí materializada a tragédia anunciada das noites de fim de semana. Alguma dúvida do que deveriam tratar as futuras campanhas públicas para essa galera?

© Eduardo Biavati e biavati.wordpress.com, 2008/2013.

Uso não autorizado e/ou publicação desse material, em qualquer meio, sem permissão expressa e escrita do autor do blog e/ou proprietário é estritamente proibida. Trechos e links podem ser utilizados, garantidos o crédito integral e claro a Eduardo Biavati e biavati.wordpress.com e o direcionamento apropriado e específico ao conteúdo original.

Licença Creative Commons
Esse trabalho está licenciado sob Creative Commons Atribuição-Vedada a criação de obras derivativas 3.0 Unported License.

Publicado por

biavati

Sociólogo, escritor, palestrante e consultor em segurança no trânsito, promoção de saúde e juventude.

2 comentários em “O carona”

  1. Ao ler seu post me lembrei de uma pesquisa realizada em 2007.

    A pesquisa O Jovem e o Trânsito é a primeira pesquisa nacional realizada pelo Ibope a pedido da Perkons, Volvo, Ministério da Saúde e Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) que traçou o perfil do jovem no trânsito e identificou sua percepção sobre o assunto. Foram entrevistados mil jovens entre 16 e 25 anos em 66 cidades brasileiras com mais de 300 mil habitantes.

    A pesquisa foi publicada em abril de 2007 como contribuição às ações de orientação e prevenção de acidentes direcionadas ao público jovem e para a Semana Nacional de Trânsito (que tinha o mesmo tema).

    Segundo a pesquisa, para 88% dos entrevistados, o jovem dirige mais depressa. Destes, 39% acreditam que o que impulsiona este comportamento é a adrenalina e 30% acreditam que é a bebida. De acordo com os resultados da pesquisa, para 86% dos jovens entrevistados o comportamento de risco no trânsito é intensificado quando o jovem está em grupo de dois ou mais amigos.

    Apesar dos números nacionais, que apontam o jovem como principal vítima em acidentes de trânsito, os jovens entrevistados não pensam que eles, como motoristas, são responsáveis pela redução dos índices de acidentes de trânsito. Apenas 10% dos entrevistados que já se envolveram em acidentes declararam, em respostas espontâneas, que o motorista jovem é o responsável pela redução de acidentes. Apesar disso, 37% acreditam que o motorista é o responsável pela queda desses números.

    Entre os que já se envolveram em acidentes de trânsito, 57% declaram que o motivo dos acidentes é imprudência do motorista, seguida pelo excesso de velocidade, com 15% das respostas, e pela bebida, com 9%.

    A pesquisa revelou também um descrédito dos jovens em relação às autoridades de trânsito e a falta de respeito às leis. Do total de entrevistados, 55% declarou que a fiscalização eletrônica é mais eficiente que a feita por agentes de trânsito. Esse desrespeito à legislação também é demonstrado pelo número de jovens com menos de 18 anos que dirigem sem ter carteira de habilitação. Do total de entrevistados com menos de 18 anos, 20 % declararam que dirigem de vez em quando e, destes, 60% aprenderam a dirigir com os pais.

    A pesquisa traz outros dados. Mas o que penso é que há uma certa incoerência entre consciência e atitude segura do jovem… Saber é um passo, mas querer fazer o certo é um passo ainda maior.

    Curtir

  2. Olá, Maria Amélia,

    Muito obrigado pela conexão com a pesquisa O Jovem e o Trânsito! Eu havia pensando em resgatar as informações de dois relatórios recentes da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre jovens e sobre o cinto de segurança para ampliar essa constatação da pesquisa da SBOT, mas não me lembraria da pesquisa conduzida pela Perkons em 2007.

    Eu penso realmente que devemos explorar melhor essas fraturas e contradições da percepção e avaliação dos riscos no trânsito. Isso não é privilégio dos jovens, é claro, mas produz gravíssimas repercussões nessa faixa etária há muito tempo. Quando defendo que a educação para o trânsito TEM QUE incluir uma crítica da violência e suas consequências, penso em uma estratégia discursiva que dê um sentido – um caminho-das-pedras – ao risco. O jovem tem que SABER o que está em jogo em suas escolhas no trânsito, mas ele também tem que SENTIR o que está jogo (vale voltar à entrevista com o pedagogo Lino de Macedo).

    Tenho lido bastante ultimamente sobre tudo isso e espero poder escrever nos próximos meses vários posts que nos levem a uma proposta concreta de ação.

    Curtir

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s