Retrato da Ética no Brasil


Na sua opinião,

AVANÇAR O SINAL VERMELHO

é

moralmente aceitável,

moralmente errado, ou

não é uma questão moral?

Agora responda:
Você já avançou o sinal vermelho?

Retrato da Ética no Brasil por Angeli
Retrato da Ética no Brasil por Angeli

O Caderno +Mais! [acesso restrito a assinantes] do jornal Folha de São Paulo publicou no último domingo (04 de outubro) uma nova pesquisa, realizada pelo DATAFOLHA, sobre o que nós, brasileiros, pensamos sobre corrupção e sobre o que é ético e moralmente correto.

A metodologia e os resultados completos da pesquisa não estão disponíveis, o que sempre recomenda muita cautela, quase dois-pés-atrás. Qualquer pesquisador que já tenha precisado agrupar variáveis, ainda que obedecendo critérios “bem objetivos”, sabe que cabe quase tudo entre cobras e lagartos. Ainda assim, o Retrato da Ética produzido pela Folha é uma excelente oportunidade para pensarmos sobre um fenômeno que tem plena expressão em nossas vidas no trânsito, mas é muito mais amplo e profundo.

As cores do retrato

Os resultados da pesquisa revelam uma extraordinária convergência de opiniões – um padrão generalizado e homogêneo de entendimento do que é a corrupção e do que entendemos por ética e moral.

Homens e mulheres, entre 16 e mais de 60 anos, quase analfabetos ou de educação superior, vivendo da mão para a boca ou com renda mensal de mais de 10 salários mínimos, estando localizados entre uma das classes A a E, torcedores do PT, PMDB, PSDB ou de nenhum partido, habitando qualquer uma das cinco regiões do país, na capital ou no interior dos Estados, incluídos ou não na população economicamente ativa e devotos de alguma fé, ou mesmo ateus, nós pensamos praticamente a mesma coisa (…) somos um país de uma ética só, analisa o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos.

Entendemos que corrupção é uma prática da esfera pública e sabemos exatamente seu lugar: os poderes Executivo e Legislativo, federal e estaduais. Ela está, no entanto, em toda parte: os “campeões da pureza”, tais como a Igreja Católica, as Forças Armadas e a imprensa, são julgados como corruptos por, respectivamente, 53%, 54% e 61% do total dos entrevistados.

A corrupção mora nas instituições que nos cercam e, ao que tudo indica, bem longe de nossas vidas de indivíduos éticos e morais. Concordamos (74%) que a obediência à lei é algo superior ao interesse privado, mesmo que isso nos custe perder oportunidades. Julgamos errado (94%) pagar propina a agentes públicos, tanto quanto condenamos (94%) vender o voto. É para nós moralmente inaceitável falsificar documentos (97%), comprar um diploma (96%), avançar o sinal vermelho (83%), mentir ou sonegar informações ao Imposto de Renda (82%). Baixar músicas pela internet sem pagar (64%) e comprar produtos piratas (63%) também são atitudes moralmente erradas, mas nem tanto assim para boa parte das pessoas.

Saimos bem no retrato que pintamos! Mas que fique bem claro que convergimos, assim na terceira pessoa do plural, por conta de uma ficção do método científico. O Retrato da Ética é um flagrante do indivíduo: “eu falo por mim“… já os outros…”

O retrato sem cores

O ponto alto da pesquisa é o amarelamento desse retrato de civilidade plena e bom-mocismo unânime. Convidados a passar do julgamento moral e ético de determinadas práticas ilegítimas ou ilícitas para a confissão de que já as praticaram, os entrevistados entregam outro retrato: 83% deles, sim,  já cometeram alguma dessas práticas em diferentes escalas de gravidade (leve, até 4 ações; média, de 5 a 10; e pesada, 11 ou mais).

80% dos entrevistados acredita que os eleitores trocam seu voto por qualquer compensação material, por um favor ou por um emprego. No Brasil da prática cotidiana, 13% dos entrevistados admite ter vendido seu voto – cerca de 17 milhões de pessoas maiores de 16 anos, no universo de 132 milhões de eleitores. A maioria de nós (56%) afirma que os outros tirariam proveito das situações, à revelia de qualquer lei, em benefício próprio. 68% compra produtos piratas; 27% baixa música da internet sem pagar; 31% já colou em provas ou concursos (49% entre os jovens); 27% recebeu troco a mais e não devolveu; 36% já pagou propina; 26% avança o sinal vermelho e, por fim, 14% para o carro em fila dupla.

O triunfo do velho faça-o-que-eu-digo-não-faça-o-que-eu-faço é a principal revelação da pesquisa do DATAFOLHA, na minha opinião, porque ela dá uma medida de como estamos longe de distinguir o público e o privado e do quanto são escorregadios nossos “marcadores éticos e morais“, para usar uma expressão do filósofo Renato Lessa.

O desfazimento da hipocrisia perversa com que tocamos nossas vidas em sociedade completa-se, agora sim, com um perfil bem conhecido. Somos todo igualmente hipócritas, mas alguns podem mais por debaixo dos panos da moral e da ética. Os homens (86%) transgridem mais do que as mulheres (80%), os jovens 16 a 34 anos (91%) mais do que os mais velhos, e os mais ricos e mais estudados são, é claro, os que têm as maiores taxas de infrações (97% dos que ganham mais de 10 mínimos assumem ter cometido infrações e 93% daqueles que têm ensino superior também).

O retrato é péssimo, em suma, mas indica a necessidade de tratarmos da transgressão das regras. A educação para o trânsito tem que abandonar a superfície das regras e mergulhar na problematização da sabotagemdo que essas regras representam. Ficam aí as pistas e os porques do confronto que deve ser promovido.

© Eduardo Biavati e biavati.wordpress.com, 2008/2013.

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Publicado por

biavati

Sociólogo, escritor, palestrante e consultor em segurança no trânsito, promoção de saúde e juventude.

7 comentários em “Retrato da Ética no Brasil”

  1. Estou contigo quando finaliza dizendo “mergulhar na problematização da sabotagem do que essas regras representam”. Entendo ainda que é necessário gerar a consciência do impacto (e consequencias) que as atitudes têm. E não apenas o impacto no coletivo, mas no próprio indivíduo… Entendendo o individual (ou privado) para passar, um dia, quem sabe… a entender o coletivo (ou público).

    E quantas vezes nos vemos pensando apenas no nosso mundo, na possibilidade de faciliar a NOSSA própria vida parando em fila dupla, estacionando em lugares não permitidos, fechando o cruzamento…
    ATITUDE HORRÍVEL. E furar o sinal então…

    Vamos pegar espelhos, olhar na nossa cara, entrar na nossa alma e refletir que o que dizemos dos outros, dizemos muitas vezes de nós mesmos. E quem sabe olhando nesse espelho seja a vergonha um possível fator para iniciar a mudança… ou aceitemos que não temos moral MESMO.

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  2. De acordo quanto ao fundo do argumento: uma coisa é declarar, outra, cumprir. Como dizia Kant, a regra, norma ou lei é sabida (e, de algum modo, representa um valor) também para aquele que transgride a regra, norma ou lei. Só há exceção à regra onde a regra é valorizada, não é? Talvez isso explique a discrepância entre a adesão de grande parte dos entrevistados às normas e, de outro lado, o fato, facilmente constatável, de que grande parte deles, aqui ou ali, hora ou outra, desrespeita a norma. Tanto é que ninguém aqui atravessa a rua apenas porque o sinal para pedestres está aberto (o que é um argumento inspirado em Hume!).

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  3. Bemvindo, Vinicius!

    Quer dizer que em Curitiba as pessoas não usam a faixa de pedestre SÓ porque o sinal lhes dá o direito de travessia? Do que desconfiam os curitibanos?

    A transgressão das regras no trânsito é um ato de vontade do transgressor; é coisa de gente sabida (como diz ainda minha avó). Não vejo como isso expresse uma valorização da regra. Conhece-la é valorizá-la? Muito pelo contrário. Não lidamos bem com regras, menos ainda com aquelas que tratem de nossas condutas no espaço público, aliás, muito mal reconhecido como tal.

    Apareça quando puderes por aqui; os assuntos costumam andar rente ao solo, mas nada que impeça outras viagens.

    Abraço,

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  4. O acesso ao link “problematização da sabotagem” não é possível devido à seguinte mensagem:

    404: Página não encontrada
    We are terribly sorry, but the URL you typed no longer exists. It might have been moved or deleted, or perhaps you mistyped it. We suggest searching the site:

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  5. Eduardo, tudo bem?

    No meu entendimento, o cumprimento das regras remete a duas questões: a) você conhece as regras? b) Você está convencido da necessidade de cumpri-la?
    Acredito que parcela significativa da população não conhece as regras. Por exemplo, ciclistas, pedestres e parte dos motoristas não estão atentos ou não conseguem interpretar o que diz a sinalização. Em determinadas situações a sinaização tem problemas de comunicação e não tem como ser entendida mesmo.
    O descumprimento pode decorrer da falta de percepção de que determinaa conduta não causa prejuízo aos demais; que se trata de uma “infração do bem”; que não faz sentido cumprir aquela regra – por exemplo andar a 40 km/h em determinado trecho de rodovia, e por aí vai.
    O descumprimento da regra gera uma demanda por fiscalização, isto é, somos incapazes de ter condutas públicas se não estivermos sob o olhar da fiscalização. Daí, quando ela vem, começa a grita contra a indústria de multas, que tem de ser educativo, etc.
    A convivência no trânsito, que implica em milhares de ações individuais acontecendo simultaneamente, não pode ter como alicerce de viabilidade a estrutura de fiscalização.
    A convivência no trânsito é um exemplo excelente que desnuda o mito do brasileiro cordial, muito bem retratado nos exemplos do Zé Simão (vai sem hiperlink).
    Abração,

    Marcos Evêncio.

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  6. Oi, Marcos,

    Eu discordo dessa suposição de que parcela significativa da população desconhece as regras e é incapaz de interpreta-la. Esse é um velho argumento que escorrega facilmente para um culturalismo sem saída – poderíamos recorrer a raízes ancestrais de nossos tempos coloniais para justificar essa incapacidade, como faz Roberto Da Mata. Os resultados da pesquisa do Datafolha apontam, porém, para uma suposição oposta.

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