Jovens em Pelotas, novembro 2010

Vocês sabem com quem estão falando? Hábitos e Riscos dos jovens no Brasil


O fim do ensino fundamental é uma festa. É uma despedida de uma demorada infância. Aos 14 anos todo mundo sabe o que quer e do que gosta; escolhe o que come e o que veste – bom, ao menos pensa que sabe e que escolhe, e isso basta para encher a boca e dizer: “a vida é minha”!

É uma época sensacional, para arrepio de professores e pais. Os adultos que sabem tudo, ou pensam que sabem, olham para essa galera efervescente, prevêem a perda iminente das rédeas, imaginam perigos horrendos e percebem que o abismo entre gerações não era papo furado.

O que levam na bagagem para o ensino médio esses jovens formandos do 9o ano? Se  é verdade que a adolescência vem invadindo o antigos limites da infância e da vida adulta, poderíamos encontrar nos hábitos de saúde dessa garotada de 14 anos o prenúncio dos comportamentos de risco que a colocará no alvo das várias violências e, em especial, da violência do trânsito?


A PeNSE


A bagagem dos estudantes do 9o ano (8a série) foi investigada por uma pesquisa inédita, realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2009. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) envolveu 60.973 alunos do 9º ano do ensino fundamental, em 1.453 escolas públicas e privadas, de todas as capitais e do Distrito Federal (DF). Desenvolvida por meio de convênio com o Ministério da Saúde, a pesquisa abrangeu sete temas: (1) Alimentação, (2) Prática de atividade física, (3) Cigarro, álcool e outras drogas, (4) Saúde sexual e reprodutiva, (5) Acidentes, violências e segurança, (6) Saúde bucal, e (7) Percepção da imagem corporal.

Lidos em conjunto os temas formam um importante painel dos hábitos, costumes e riscos vividos pelos jovens formandos do ensino fundamental no Brasil de hoje e ensina que precisamos olhar muito além do mundo restrito do trânsito para pensar em educar para o trânsito. Se houver interesse genuíno em estabelecer um diálogo com essa galera, essa é uma leitura obrigatória.


Família e alimentação



A PeNSE 2009 estimou que há 618.555 estudantes do 9o ano frequentando a escola nas capitais brasileiras e no Distrito Federal. A maioria absoluta desses jovens (79,2%) estuda em escolas públicas. É uma população majoritariamente feminina (52,5%) e com idade entre 13 e 15 anos, concentrando-se, como esperado, nos 14 anos (idade de 47,1% dos alunos).

Quase 60% dos escolares vive em lares com presença de pai e mãe. Os que residem apenas com as mães somam 31,9% do total. Apenas 4,6% dos escolares vivem somente com o pai. Em todas as situações, a PeNSE indica que a convivência familiar ainda circunscreve um campo de influência na formação e na vigilância de hábitos de saúde dos jovens. Trata-se, porém, de um reino em decomposição.

Viver junto assegura, por exemplo, que a maioria dos escolares (62,6%) faça cinco ou mais refeições na semana com a presença da mãe ou responsável. Os dados da PeNSE revelam, entretanto, que não decorre disso uma alimentação saudável. Você conhece jovens que comem rúcula? Tomate? Cenoura? Maçã? Banana? Manga? Quando você tinha 14 anos, você comia alface? Não deve surpreender que o consumo de guloseimas (comuns na boca de 50,9% dos escolares nos 5 dias anteriores à pesquisa) supere o consumo de frutas frescas e hortaliças (31,5%), em todas as capitais e Distrito Federal.  Surpresa é a vitória do feijão, que se destaca como o alimento saudável mais consumido, especialmente entre os homens e os alunos das escolas públicas. Guloseimas, biscoitos doces e salgados, por sua vez, são o destaque da dieta das estudantes. Tudo regado a refrigerantes, é claro, consumidos por 4 em cada 10 estudantes.

A família parece ter um controle fraco da qualidade da alimentação dos jovens e é provável que ela promova esse padrão alimentar, rico em açúcares e gorduras, na mesa em casa, ao invés de se constituir em uma defesa dos hábitos saudáveis. A garotada come mal e em família.


Cigarro, álcool e outras drogas



by Eduardo Biavati

A presença dos pais garante ainda algum conhecimento do que os jovens fazem no seu tempo livre. A maior parte (55,8%) dos jovens declarou à PeNSE que seus pais ou responsáveis sabem o que eles fazem quando não estão na escola, para onde eles vão quando saem, com quais amizades e assim por diante.

É importante observar, no entanto, que mais de 40% dos pais nada sabe da vida extra-escolar de seus filhos, segundo os próprios jovens pesquisados. Como poderiam, então, controlar a experimentação e o consumo do cigarro, álcool e outras drogas?

Cerca de 1/4 dos estudantes do 9o ano já experimentou cigarro alguma vez na vida. Curitiba é a capital com maior índice (35%), seguida de Campo Grande (32,7%) e Porto Alegre (29,6%). Essa é uma experiência igualmente comum entre meninos e meninas e mais disseminada entre os estudantes das escolas públicas (25,7%) do que os das escolas privadas (18,3%).

Pais fumantes poderiam influenciar a formação desse hábito tabagista nos filhos? A PeNSE fornece uma pista sobre isso. A proporção de jovens que já experimentou cigarro é praticamente a mesma de pais e responsáveis fumantes: 31% dos escolares tinham ao menos um responsável fumante, vício de 39,8% dos pais em Porto Alegre.

Bastante gente experimenta, mas poucos podem ser identificados como usuários frequentes do cigarro a essa altura do campeonato: apenas 6% dos jovens admite ter fumado nos 30 dias anteriores à pesquisa e, mais uma vez, é em Curitiba que encontramos o maior número de jovens fumantes (9,9% do total).

É possível dizer, portanto, que grande maioria desses jovens está de certo modo protegida do vício do tabaco que, aliás, vem sendo desvalorizado culturalmente e crescentemente banido dos mais diversos espaços de lazer. Além do mais, fumar cigarro não tira ninguém do sério… beber, sim. A droga do jovem do 9o ano se chama álcool.

A PenSE confirma o que diversas pesquisas vem demonstrando nos últimos anos: o consumo de bebidas alcoólicas já é amplamente disseminado entre os estudantes do 9o ano. 71,4% já haviam experimentado álcool alguma vez, as meninas ainda mais (73,1%) do que os meninos, e os alunos das escolas privadas (75,7%) mais do que os das escolas públicas (70,3%). É na capital paranaense que mais jovens (80%) afirmam já terem experimentado bebidas alcoólicas.

Muita gente aos 14 anos já provou álcool e quase 1/3 dos jovens declarou à PeNSE ter consumido bebidas no mês anterior à pesquisa, indicando uma regularidade no consumo. Em quais capitais esse consumo é mais frequente? Em Curitiba e Porto Alegre, onde 36,4% relatam a ingestão de álcool no último mês. Será uma coincidência que em Curitiba mais jovens (30%) relatem episódios de embriaguez do que em qualquer outra cidade investigada?

Beber até ficar embriagado é uma experiência vivida por 22% dos jovens pesquisados. Também conhecido como binge drinking, encher a cara é um comportamento bem valorizado entre os jovens e é claro que ninguém chega a isso bebendo “socialmente” apenas algumas latas de cerveja. Para ficar bêbado é preciso bebida à vontade, e é isso que nossos jovens encontram em festas (36,6% do local de consumo indicados por eles), nos supermercados, ou bares (19,3%), na casa dos amigos e na própria casa, local de consumo de 12,6% dos jovens.

Do álcool para outras drogas nem sempre há uma grande distância e a PeNSE investigou qual seria o contato dos jovens com maconha, cocaína, crack, cola, loló, lança perfume e ecstasy. 8,7% dos estudantes responderam que já haviam experimentado alguma dessas drogas. É uma experimentação 2 vezes mais comum entre os homens do que entre as mulheres. Em Curitiba, encontrou-se uma proporção quase duas vezes maior (13,2%) de jovens que já experimentaram essas drogas do que em qualquer outra cidade investigada.


Uso do cinto de segurança e direção veicular



A PeNSE confirma uma antiga tradição nacional de iniciação precoce da direção veicular. Quase 4 anos antes da maioridade,  20% dos jovens declarou ter dirigido algum tipo de veículo motorizado nos últimos 30 dias. É um forma de iniciação à transgressão fortemente masculina, como todos sabemos: homens ensinam homens a dirigir. Provavelmente ensinam-se mulheres também, desde que não saiam de carro – dirigir sem habilitação é uma prática 3 vezes mais frequente entre os meninos do que entre as meninas.

Essa geração de jovens nasceu junto com o estabelecimento da obrigatoriedade do uso do cinto de segurança no Brasil e seria razoável esperar que apresentassem um alto índice de uso do cinto. É o que confirmam os dados da PeNSE. No entanto, considerando-se todas as capitais e o Distrito Federal, 26,3% dos escolares relataram que não usaram cinto de segurança quando eram passageiros de um veículo nos mês anterior à pesquisa. No Rio de Janeiro, é ainda maior a proporção de não usuários (37,5%) e igualmente alta (igual ou maior do que 30% dos jovens) em Salvador, Fortaleza, Palmas e Manaus.

Quem conduzia o carro do qual esse jovens eram passageiros? Na maioria das vezes em que foram carona, quem estava na direção? É certo que algum adulto ignorou a supervisão do uso do cinto, contribuindo para uma situação de risco que, aliás, não se resume apenas a viajar solto no carro. A PeNSE revela que 18,7% dos jovens foram transportados, nos últimos 30 dias anteriores à pesquisa, em veículos dirigidos por motoristas que consumiram bebida alcoólica e que os alunos das escolas privadas estiveram mais expostos (23,8%) a esse risco do que os das escolas públicas (17,3%). Para uma galera que está começando a dirigir e a beber, a demonstração prática do comportamento adulto não poderia ser pior. Quem seria esse motorista que bebe e dirige? A PeNSE não avança nessa investigação, mas considerando que a quase totalidade desses jovens é carona nas viagens de ida e volta para a balada e que os pais são os motoristas mais frequentes… Os pais estariam ensinando aos filhos que se pode beber e dirigir?


Saúde sexual



Por último, como ignorar a emergência explosiva da vida sexual dos nossos jovens? A PeNSE revelou que 30,5% dos estudantes do 9o ano já tiveram relação sexual. O percentual é maior entre os homens (43,7%). Nas escolas públicas foram constatados mais escolares que já iniciaram a sua vida sexual (33,1%), quando comparados aos das escolas privadas (20,8%). Embora a maioria (87,5% dos alunos da rede pública e 89,4% da rede privada) tivesse informações sobre AIDS ou outras doenças sexualmente transmissíveis, 24,1% dos estudantes não havia usado preservativo na última relação sexual.

© Eduardo Biavati e biavati.wordpress.com, 2008/2013.

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Licença Creative Commons
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Publicado por

biavati

Sociólogo, escritor, palestrante e consultor em segurança no trânsito, promoção de saúde e juventude.

6 comentários em “Vocês sabem com quem estão falando? Hábitos e Riscos dos jovens no Brasil”

  1. Essa pesquisa me assusta!
    Visitei a página interessada pela assunto “cinto de segurança”, pois fui salva pelo uso do cinto no BANCO DE TRÁS e gostaria de saber como os jovens andam se protegendo nas estradas.
    Fiquei preocupada com o resultado.
    Mas ao ler o resto da pesquisa tive a certeza de que eles não se preocupam NEM UM POUCO com a própria segurança, saúde, vida… em nenhum sentido.
    Também já fui jovem e também achava que coisas ruins só aconteciam com o vizinho, mas acho que tinha um pouco mais de amor próprio e conhecimento dos riscos que nos rondam.
    Espero que isso mude para melhor nas próximas gerações.

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  2. Olá, Bruna,

    A pesquisa dá arrepios mesmo. Tendemos a romantizar esses anos dourados de descobertas e expansão da vida pessoal, sexual e social, como se lá nos 14 anos houvesse alguma pureza e ingenuidade ainda. Não há nada romântico, no entanto, para se ver.

    Eu gostei muito da pesquisa especialmente porque ela foi respondida pelos próprios jovens em computadores de mão – eles não foram entrevistados; eles responderam o que quiseram, cada um consigo mesmo. Sensacional esse procedimento. O retrato que temos, por conseguinte, é o retrato que eles tem deles mesmos.

    A pesquisa tem ainda um valor extra: ela mostra que os hábitos estão relacionados, formando uma conduta geral com relação ao corpo e à vida. Grande liçao.

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  3. Em relação a Curitiba, o interessante é como o mito que ronda a cidade (somos um “Brasil diferente”, aqui é como Primeiro Mundo) resiste a toda investida de realidade. Não bastasse a cidade apresentar vários recordes na pesquisa realizada com os meninos, abra-se o jornal de segunda feira: fim de semana contando 30 ou homicídios… Ou dar uma volta pelo centro, que começa a virar cracolândia. Ou descobrir que, além do deputado que dirigia bêbado a 190 km/h, quando atingiu um carro parado e matou dois rapazes, vários seus colegas estão com carteira vencida… Mas nada é conosco, o mito nos protege e nos faz pensar que nada temos com isso. É como aquela história do padre que se recusou a olhar pelo telescópio de Galileu. E como fazer política pública pra valer, recusando-se a reconhecer a realidade? Pela distribuição dos telescópios!

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  4. Como curitibana não tinha noção desse cenário. A violência urbana está tão presente no cotidiano e nem sempre é mensurada. Entendo que por trás do que trata a pesquisa há um problema de EDUCAÇÃO. De omissão dos pais diante da dificuldade atual de controlar, orientar e agir com seus filhos. Os menores de 18 anos sempre encontrarão maneiras de transgredir as proibições para o uso de bebida alcoólica e outras drogas. Entretanto, os pais (e talvez a sociedade) têm ajudado para que isso não seja visto pelos jovens como transgressão. A introdução à bebida muitas vezes acontece dentro de casa. E o exemplo dos pais quanto à péssima prática de beber e dirigir (também mostrado pelas estatísticas) não tem sido tão positivo assim… Que exemplos os pais têm dado aos seus filhos? O maior exemplo que os filhos têm dos pais é a maneira como estes lidam com as questões da vida.

    Quanto a Curitiba ser dona dos piores indicadores… impunidade e omissão na fiscalização podem ser dois importantes motivos. Eu não tenho visto blitze por aqui. Gostaria de saber se outros Curitibanos também já perceberem isso.

    Obrigada por suas importantes contribuições no blog. Um abraço de toda equipe da Perkons!

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  5. Pensando ainda sobre os joves curitibanos.

    Os dados indicam um grave problema se formando bem cedo com a gurizada de Curitiba. Poderíamos até achar que é um problema dos alunos da rede privada, coisa dos filhos da classe média curitibana, mas não é o que mostram os dados da Pense. Poderíamos também pensar que é uma espécie de distorção da própria pesquisa, que talvez os jovens de Curitiba tenham sido simplesmente mais honestos do que os demais no Brasil, mas essa distorção teria se repetido em outras questões da pesquisa e isso não ocorreu.

    Não acho que é uma questão de desinformação da garotada. Eu acho que é uma questão de um discurso que já não acompanha nem impacta nenhum deles aos 13 ou 14 anos de idade. É uma questão de IRRESPONSABILIDADE dos pais, um desengajamento da autoridade. A gente sempre acredita que educando os menores, ganhamos os adultos de lambuja – de tanto encherem o saco e se tornarem fiscais dos adultos, matariamos 2 coelhos de uma vez. Mas isso não acontece, ou pelo menos aos 13 anos não acontece mais.

    Talvez exista ainda algum componente cultural forte de Curitiba que eu não saberia desvendar… mas a verdade é que por detrás de uma organização social tão civilizada, tão europeizada… pode ser que se escondam hábitos de risco graves. Nem escondidos estão mais; eles estão lá.

    Bom, são especulações, por enquanto.

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