turma jovem (3) - Version 2

Retratos do risco quando jovem


Em 2009, o Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN) promoveu um ciclo nacional de palestras dirigidas aos jovens. Essa foi a terceira ação do projeto Trânsito Consciente, que se iniciou com a produção de 20 filmes tratando de diversos temas do trânsito e tomou a forma de um caderno distribuído às milhares de escolas e aos alunos em todo país.

As palestras envolveram cerca de 5.300 estudantes do Ensino Médio das redes pública e particular de seis cidades (Florianópolis, Curitiba, Belo Horizonte, Brasília, Recife e Porto Alegre), entre outubro e novembro de 2009.

Este slideshow necessita de JavaScript.

O “Trânsito Consciente” representa a busca de uma linguagem que mobilize o jovem para novas atitudes no trânsito e para a formação de uma consciência de autocuidado e, ao mesmo tempo, promova o engajamento dos docentes em um novo discurso sobre o trânsito. Com as palestras, a busca foi além da disseminação de conhecimentos – ela gerou conhecimento sobre os hábitos no trânsito dos jovens estudantes do ensino médio.

A pesquisa “A balada, o carona e a Lei Seca” focou três temas:

(a) a condição de carona e o uso do cinto de segurança no banco traseiro,

(b) a adesão à “Lei Seca”, e

(c) o impacto atitudinal das campanhas de segurança no trânsito.

Os resultados apresentados na íntegra a seguir consolidam diversas informações sobre o consumo de álcool e o não-uso do cinto de segurança pelos passageiros. É um retrato a mais na galeria que se forma com os resultados da pesquisa sobre os hábitos de saúde dos formandos do ensino fundamental (abordada no post Vocês sabem com quem estão falando?), da investigação sobre os hábitos de uso do cinto de segurança dos jovens universitários (tema do post O carona) e da pesquisa sobre a percepção do jovem brasileiro em relação ao trânsito [arquivo PDF], realizada pelo Programa Volvo de Segurança no Trânsito (PVST), em conjunto com a Perkons, em 2007.

Entre 14 e 25 anos, temos agora mapeados, portanto, mais alguns elos da formação da violência do trânsito entre nosso jovens.

Perfil geral

Os alunos dos segundos e terceiros anos do Ensino Médio foram o público-alvo do Ciclo de Palestras Trânsito Consciente e essa característica determinou a homogeneidade etária e a distribuição de gênero entre os participantes do survey.

A idade média dos participantes foi de 16,4 anos, ligeiramente abaixo da idade esperada para o público do Ciclo. Em várias cidades, muitas escolas enviaram turmas de alunos de primeiro ano, ao invés de garantirem a presença de alunos do terceiro ano, o que reduziu a idade média do público e explica porque 21,3% dos alunos tinha 15 anos ou menos.

Fonte: DENATRAN, 2009

Confirmou-se a predominância feminina (56,2%) observada nas séries finais do Ensino Médio, especialmente nas escolas da rede pública, que contribuíram com 67,9% do total de respondentes.

A balada e o carona

Beber e NÃO dirigir é uma atitude de segurança crucial nessa idade de alto risco e alta exposição à violência do trânsito, particularmente no período privilegiado do lazer juvenil, que são as noites das baladas de sexta-feira a domingo. Essa é, entretanto, uma atitude insuficiente quando o jovem é carona no veículo que lhe transporta para a balada e de volta dela nas madrugadas.

Os jovens pesquisados caracterizam-se como passageiros de veículos de passeio. É notável que menos de 2% deles afirma ser o condutor do carro ou da motocicleta. Aliás, apesar de amplamente disseminada, a motocicleta não é o veículo da balada (1,7%) dos jovens nas capitais pesquisadas.

Fonte: DENATRAN, 2009

Os jovens vão para a balada com os amigos (34,1%), com os pais (31,4%) ou conduzidos por um taxista ou motorista de ônibus (28,1%). Não há um modo dominante de deslocamento para a balada entre os jovens pesquisados, ao contrário do que se poderia esperar se o partipantes do Ciclo de Palestras fossem majoritariamente alunos do terceiro ano do Ensino Médio. Com uma idade mais alta e maior autonomia social, esses jovens provavelmente deslocam-se com o grupo de pares, dirigindo o veículo ou sendo transportados pelos colegas.

Ainda assim, há diferenças importantes por sexo e entre as cidades pesquisadas. Ir para a balada de carona no carro dos amigos é o roteiro predominante dos jovens homens (37,5%). A carona no carro da mãe ou do pai, ao contrário, é uma posição predominante entre as meninas (39,2%).

Em Florianópolis, a maioria dos jovens vai para a balada de carona no carro de amigos (51,8%). Em Brasília, quase a metade deles (47,8%) vai para a balada de carona no carro da mãe ou do pai.

Em contraste, o padrão predominante é ir para a balada de taxi ou de ônibus tanto em Belo Horizonte (49,1%) como em Recife (41,8%). Há uma distorção a considerar, porém, em ambos os casos. Nessas cidades, praticamente a totalidade de alunos participantes das palestras foi oriunda da rede pública de Ensino Médio e são, possivelmente, usuários frequentes dos sistemas de transporte. Além disso, em Recife, 38,8% do público tinha 15 anos ou menos, tornando praticamente insignificante a prática de ir para a balada no carro de amigos.

O carona e o cinto de segurança

Quase 2/3 dos jovens pesquisados (65,5%) é carona de um veículo conduzido por seus amigos ou pais. A condição de carona, porém, não está associada a um atitude de segurança efetiva para a quase totalidade desses jovens.

Na posição de passageiros no banco traseiro, nas noites de balada, apenas 2 em cada 10 jovens usa SEMPRE o cinto de segurança.

Fonte: DENATRAN, 2009

Quando as circunstâncias permitem, o cinto é utilizado por 47,7% dos jovens, e é claro que sair no carro dos amigos não é uma circunstância que contribua para o uso do cinto no banco traseiro: 35% NUNCA o utiliza quando sai com seus amigos.

A presença e a autoridade do pai ou da mãe conduzindo o jovem para a balada e no retorno para casa incentivaria maior uso do cinto de segurança? Muito pouco. Quase 1/3 dos jovens (28,9%) nunca usa o cinto e outros 44% usa eventualmente, quando pegam carona para a balada no carro dos pais.

Fonte: DENATRAN, 2009

Os jovens de Florianópolis apresentaram o mais baixo percentual de uso do cinto de segurança no banco traseiro (48% nunca usa o cinto). Em Brasília, ao contrário, 39,4% dos jovens afirma usar sempre o cinto quando é passageiro no banco traseiro.

Se os jovens pesquisados usam muito pouco o cinto de segurança no banco traseiro, seus amigos usam menos ainda: de acordo com a observação dos participantes do Ciclo de Palestras, apenas 6,4% dos amigos sempre usa o cinto.

Não deixa de ser curioso que o comportamento de quem fala seja sempre melhor relatado do que os dos dois amigos sentados ao seu lado, no mesmo banco do carro, indo e voltando para a mesma balada. É muito mais provável que o uso efetivo do cinto por todos eles se aproxime desse número insignificante, inferior a 10%, como demonstram diversas outras pesquisas nacionais que indicam que mais de 90% dos passageiros brasileiros nunca usa o cinto de segurança no banco traseiro.

Beber e dirigir. O impacto da “Lei Seca”

O “amigo da vez” é uma prática conhecida entre os jovens pesquisados, mas não é predominante entre aqueles que vão para a balada de carona no carro dos amigos. Entre pares, 55% dos jovens retorna de carona no carro do amigo que bebeu antes de dirigir.

Entre os meninos, essa vulnerabilidade é ainda mais acentuada – 61,2% deles retorna com um amigo que bebeu antes de dirigir. As meninas saem-se um pouco melhor nessa situação – mais da metade (50,7%) delas afirma voltar da balada com um amigo que deixou de beber para dirigir.

A carona no carro do amigo que bebeu antes de dirigir indica uma incapacidade geral entre os jovens de intervir em uma situação com a qual eles não concordam. Beber E dirigir não é uma prática valorizada entre eles. Pelo contrário, a opinião unânime, praticamente absoluta (88,5%), entre meninos (84,9%) e meninas (91,4%), em todas as cidades, é que beber e dirigir deve ser proibido.

Fonte: DENATRAN, 2009

A condenação unânime dessa prática pelos jovens não se traduz, entretanto, com igual intensidade em uma adesão inconteste à “Lei Seca” vigente. A quase totalidade dos pesquisados (84,9%) afirma conhecer a lei e a maioria deles (63,4%) concorda totalmente com sua aplicação. A aprovação integral da lei é ainda maior entre as meninas (66,7%), como seria de se esperar, e especialmente forte entre os jovens curitibanos (72,5%).

Mais de 1/3 dos jovens pesquisados (34,4%) aprova parcialmente a “Lei Seca” e essa “adesão com ressalvas” é ainda mais significativa entre os jovens de Brasília (46,2%) e Florianópolis (42%). Vale destacar que os candangos apresentam o menor índice de aprovação total da “Lei Seca” (51%) entre todos os jovens pesquisados.

Fonte: DENATRAN, 2009

Do que discordariam os jovens quanto à aplicação da “Lei Seca”? O survey investigou se o jovem se submeteria ao exame do bafômetro, caso tivesse bebido e fosse flagrado dirigindo um veículo pela fiscalização.

A maioria dos jovens (64,3%) sopraria o bafômetro, 16,7% se recusaria a fazê-lo e 18,9% não souberam o que responder. Mais meninos (21,7%) do que meninas se recusariam ao exame, e mais meninas têm dúvida (20,3%) sobre qual atitude tomariam.

Fonte: DENATRAN, 2009

Brasília e Florianópolis lideram a oposição ao bafômetro entre os jovens. Na capital catarinense, 27% se recusaria ao exame; em Brasília 19,4% faria o mesmo. Em contraste, quase 2/3 dos jovens de Curitiba, Belo Horizonte e Porto Alegre afirmam que faria o exame, se fosse solicitado pela fiscalização.

Fonte: DENATRAN, 2009

Educação na escola, campanhas públicas e mudança de atitude

É possível que esse conjunto de comportamentos dos jovens, associando a carona no carro dos amigos, o não uso do cinto de segurança no banco traseiro, a vulnerabilidade ao beber e dirigir do condutor, e também as incertezas ou discordâncias com relação à “Lei Seca”, pudessem encontrar um contraponto crítico em ações de educação para o trânsito na escola ou nas campanhas públicas sobre segurança no trânsito. O contraponto, porém, inexiste ou é largamente ineficaz atualmente.

Nenhuma atividade de educação para o trânsito é realizada na maioria das escolas (51,8%), públicas ou particulares, nas quais estudam os jovens pesquisados.

A inação no Ensino Médio com relação à violência do trânsito poderia ser coberta, em parte ao menos, pelas campanhas públicas de segurança no trânsito, veiculadas frequentemente pelos diversos meios de comunicação. Entretanto, 6 em cada 10 jovens, sejam meninos ou meninas, não se lembra de nenhuma campanha recente.

Não deveria surpreender que, na opinião majoritária (53,3%) dos jovens, nenhuma atitude tenha mudado por causa de uma campanha de educação para o trânsito. As meninas mostram-se, nesse ponto, mais sensíveis à mudança – a maioria delas (52,2%) admite já ter adotado uma nova atitude no trânsito depois de terem assistido a alguma campanha.

Fonte: DENATRAN, 2009

Seria um bom resultado, mas é um indicador da baixa eficiência das campanhas recentes, que vêm errando o alvo principal, ao que parece, porque as meninas são a minoria absoluta do grupo de jovens em risco no trânsito: 70% dos jovens que morrem nos acidentes são homens.

© Eduardo Biavati e biavati.wordpress.com, 2008/2013.

Uso não autorizado e/ou publicação desse material, em qualquer meio, sem permissão expressa e escrita do autor do blog e/ou proprietário é estritamente proibida. Trechos e links podem ser utilizados, garantidos o crédito integral e claro a Eduardo Biavati e biavati.wordpress.com e o direcionamento apropriado e específico ao conteúdo original.

Licença Creative Commons
Esse trabalho está licenciado sob Creative Commons Atribuição-Vedada a criação de obras derivativas 3.0 Unported License.

Publicado por

biavati

Sociólogo, escritor, palestrante e consultor em segurança no trânsito, promoção de saúde e juventude.

7 comentários em “Retratos do risco quando jovem”

  1. Muito bom esse blog e informativo; tenho certeza se cada um de nós fazermos a nossa parte por menor que seja ou possa parecer se torna parte de grande ação e que com certeza vai salvar muitas vidas no Trânsito o qual mata muita gente todos os dias.
    Se com todos os nossos esforços possamos salvar um só vida já terá valido a pena pois uma vida não tem preço.

    Curtir

  2. Caro Pinheiro,

    Bemvindo!
    Comente quando quiser. O espaço está aberto porque somente assim conseguiremos somar idéias e inovar para mudar essa realidade do trânsito.

    Curtir

  3. Muito bem ! Biavati mais uma vez voce supera nossas expectativas
    Muito interessante este trabalho. Pena que não consegui assistir em Brasilia.
    Vamos fazer aqui no Rio? Estou esperando!
    Abracos
    Hugo Leal

    Curtir

  4. Olá, Hugo!

    O trabalho foi um grande sucesso no ano passado. Pena que tenha começado tarde no segundo semestre porque a agenda das escolas e dos alunos do ensino médio inviabilizou que mais cidades pudessem ser incluídas no roteiro. Foi o que aconteceu, por exemplo, no Rio de Janeiro, que ficou de fora dessa primeira etapa do Ciclo de Palestras. Como os jovens cariocas reagiriam a esse conteúdo? Quais teriam sido as respostas ao survey? Fez muita falta o contato com essa galera (que eu tenho no meu alvo desde o tempo em que trabalhava no Hospital SARAH em Brasília).

    Eu tenho certeza de que chegaremos ao Rio, mas não há até o momento condições operacionais no DENATRAN para dar continuidade ao Ciclo de Palestras em 2010. De qualquer forma, estamos em busca de soluções e, como sempre diz minha avó, quem procura, acha!

    Grande abraço,
    Biavati

    Curtir

  5. Bom dia Biavati!

    Assisti a sua palestra em dezembro de 2009, no SEST/SENAT, aqui em SP.

    Parabéns, mais uma vez, pela sua atuação em prol dos jovens agora através desta pesquisa.

    Quando tiver palestra em SP me avisa por e-mail, por favor.

    Um forte abraço,

    Paulo Emílio

    Curtir

  6. Olá, Paulo,

    Obrigado pela visita. Precisamos dos jovens – inteiros, de preferência! Como dialogar, porém, se não os conhecemos? É uma corrida contra a maré!
    Assim que tiver alguma programação, eu lhe aviso.
    Abraço, Biavati

    Curtir

  7. Olá, Biavati,

    Tenho certeza que seu trabalho tem ajudado muito aos jovens de todas as classes e de qualquer Estado que tenha a oportunidade de assistir suas palestras. Mas, claro que ainda estamos longe da realidade sonhada, até porque precisaríamos tê-lo por mais tempo fazendo inclusive um acompanhamento dos resultados dos trabalhos.

    Mas esse é o primeiro passo. Segundo, precisaríamos aparelhar melhor os Órgãos de Trânsito para endurecer a fiscalização. E, por fim, exercitar a Cidadania.

    Um grande abraço
    Selma Dantas

    Curtir

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s