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Para falar da violência no trânsito. Lições from “down under”


Como se mede o tamanho da violência no trânsito? Pelas perdas humanas de cada colisão ou atropelamento: quantificamos os mortos e os feridos. É uma conta que deveria somar zero, ao menos a conta dos mortos, mas está sempre muito longe disso, indicando nossa incapacidade de controlar um fenômeno altamente previsível e, sobretudo, de transformar a realidade que gera o fenômeno.

A bem da verdade, temos conseguido algum avanço. Desde 2004, não somamos menos do que 35.000 mortes por ano no trânsito no Brasil, mas isso não é necessariamente prova do fracasso de uma política pública de segurança no trânsito, se é que isso existe. Considerando o crescimento populacional e o extraordinário aumento da frota de veículos, motocicletas incluídas, o resultado até que tem sido bem razoável: dividindo-se o total de mortes para cada grupo de 100.000 habitantes, tínhamos 17,5 mortes em 2008; em 2004, eram 19,8 mortes. Coisa mais maravilhosa é a estatística! Continuamos no grupo dos países com a maior mortalidade no trânsito nas Américas, mas estamos melhor do que o México, a Venezuela e El Salvador, de acordo com oInforme sobre o estado da segurança viária na região das Américas(2010), publicado pela a Organização Panamericana de Saúde (OPAS), se isso serve de consolo.

As mortes representam, porém, apenas uma pequena parte da violência no trânsito. É preciso olhar para as outras vítimas, os sobreviventes dessa violência. A Organização Mundial da Saúde calcula que para cada morte, ao menos 15 indivíduos requerem cuidados médico-hospitalares. É um cálculo mínimo em meio à fragilidade dos sistemas de informação e ao grande subregistro de casos. Nos Estados Unidos e no Canadá, para cada morte contam-se 50 feridos, dos quais 1/3 se tornará portador de sequelas incapacitantes definitivas, apesar de todo aparato sofisticado de resgate e atendimento hospitalar. Pelos dados oficiais brasileiros, 15 sobreviventes para cada morto, teríamos cerca de meio milhão de vítimas do trânsito a cada ano, mas é bom considerar que o número total pode ser muito maior, atingindo mais de 2 milhões de pessoas.

Mantemos uma contabilidade, portanto, que nos dá o contorno da violência no trânsito, mas é só isso – uma aproximação precária que circunscreve as perdas e danos ao imediato do evento e aos seus atores voluntários e involuntários. Escapa a incomensurável ruptura dos núcleos familiares, que conhecemos pela dor de pais e mães, irmãos, tios, avós; o impacto humano e emocional dos policiais e dos bombeiros que resgatam os corpos no asfalto; a ausência do melhor amigo e do aluno na sala de aula. Por que não partilharia tantas perdas o médico legista ao receber o corpo de um jovem de 16 anos? Quantas são, afinal, as vítimas das vítimas?

Toda violência irradia seus efeitos como ondas que repercutem profunda e longamente por todo tecido social. Todos nos machucamos – essa é a idéia central da nova campanha da Transport Accident Commission (TAC), organização governamental do Departamento de Victoria, australiana.

Nos últimos 20 anos, a TAC criou um poderoso conjunto de campanhas de segurança, abordando praticamente todos os principais fatores de risco no trânsito (sobretudo álcool e velocidade) a partir de uma mesma filosofia:

conte a verdade, mostre a realidade

A nova campanha “Everybody hurts when you speed” busca demonstrar que uma única escolha, um único ato – correr -, pode afetar muitas vidas, propagando seus efeitos na comunidade imediata. Esse conceito vem sendo explorado desde 2005 pela TAC para dar visibilidade aos “outros” resultados do trauma no trânsito, incluindo as consequências de longa duração de uma lesão cerebral ou medular e a dor e perda sofridas pela família e amigos. O conceito agora serve ao objetivo de tornar a velocidade excessiva moral e socialmente inaceitável.

Nada é mais poderoso do que contar uma história real, como se comprova mais uma vez na abordagem autêntica e crua das emoções de “Everybody hurts”. A história central da campanha é a grave colisão em alta velocidade que matou Luke Robinson, feriu gravemente os três passageiros que estavam com ele no carro, e afetou a vida de centenas de pessoas. Nada do acidente é demonstrado, mas a narrativa explica que ao final de duas colisões contra postes, os parachoques dianteiro e traseiro chegavam a se tocar, e que foi um surpresa que alguém tivesse sobrevivido.

Em torno da história de Luke Robinson gravitam os depoimentos curtos, emocionados, sem retoques, de muitos personagens reais atingidos pela violência do acidente:

O pai

>

O irmão

O melhor amigo

Os passageiros

Os colegas do trabalho

As testemunhas do acidente

Os jornalistas locais

O amigo da família

O treinador do time

A avó

O policial

O médico legista

Esses depoimentos formam um painel humano de grande força argumentativa e colocam em questão muitas certezas de nosso individualismo (“a vida é minha”, “se eu morrer, morri”), tão arraigado, aliás, no modo de vida juvenil contemporâneo (Luke Robinson tinha apenas 19 anos). Por isso, ao invés da escolha óbvia da dor dos membros do núcleo familiar, os depoimentos transbordam para outras dimensões da vida afetiva e profissional da vítima, e, mais ainda, para a dimensão de seu pertencimento à comunidade mais ampla.

A campanha da TAC transforma, assim, a violência em uma ferramenta de reflexão sobre os elos profundos que nos ligam em sociedade e atinge um resultado ainda mais afiado do que obtiveram os franceses com uma campanha emocionante dirigida aos jovens motociclistas (“Mortel Scooter”), no final de 2009.

Na campanha da Prévention Routière, o objetivo era abalar a confiança na invulnerabilidade dos jovens, falando da fragilidade do corpo, através, também, de um painel de depoimentos muito diretos e autênticos, mas circunscritos ao universo privado imediato da família e dos amigos. Os australianos rompem esse limite e demonstram que cada vítima do trânsito é um assunto de todos nós.

Decorre dessa extraordinária concepção da “Everybody hurts” o uso mais inteligente que conheço do poder das redes sociais em uma campanha pública.

Ao invés de simplesmente “desacelerar um amigo” (slow down a friend), enviando um email com o link da campanha, ou disponibilizar o compartilhamento da campanha pelo twitter, facebook, orkut, myspace, youtube, etc., o criadores da campanha inventaram uma maneira de demonstrar quem você machucará quando correr: todas as pessoas que fazem parte da sua rede no facebook (para usuários dessa rede social, é claro).

No mesmo fundo do website principal da campanha (que utiliza uma imagem de ondulações na água, para reforçar a idéia de que a violência se irradia para longe de seu ponto inicial), surgem, então, os nomes de seus amigos flutuando ao redor da mensagem central:

todos se machucam quando você corre

© Eduardo Biavati e biavati.wordpress.com, 2008/2013.

Uso não autorizado e/ou publicação desse material, em qualquer meio, sem permissão expressa e escrita do autor do blog e/ou proprietário é estritamente proibida. Trechos e links podem ser utilizados, garantidos o crédito integral e claro a Eduardo Biavati e biavati.wordpress.com e o direcionamento apropriado e específico ao conteúdo original.

Licença Creative Commons
Esse trabalho está licenciado sob Creative Commons Atribuição-Vedada a criação de obras derivativas 3.0 Unported License.

Publicado por

biavati

Sociólogo, escritor, palestrante e consultor em segurança no trânsito, promoção de saúde e juventude.

6 comentários em “Para falar da violência no trânsito. Lições from “down under””

  1. Na mesma linha do clip do Simple Plan com a música Untitled.
    São chocantes, dramáticas, impactantes mas absolutamente verdadeiras e necessárias.
    O impacto e o desconforto de assistir as imagens da campanha são infinitamente inferiores à dor intensa e permanente de experimentar o sentimento de cada um dos protagonistas da campanha.
    Anodinia???? Sempre discordei desse conceito quando a questão é SALVAR VIDAS!!!!

    Brilhante Eduardo. parabéns pela sacada e pelo texto.

    Fernando Pedrosa

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  2. Olá, Fernando,

    Bem lembrado do Simple Plan!
    É isso aí: esse papo de anodinia não passa de uma desculpa covarde, e também ideológica, para não se fazer algo de significativo, especialmente para o grande grupo de vítimas jovens.

    Obrigado, Fernando

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  3. Olá, Maria Amélia,

    Já estava com saudades de conversar contigo, saber notícias.
    Vamos produzir um projeto para 2011 nessa linha da TAC? To dentro! Pode me chamar :)
    Eu quero ver os diretores de marketing da TAC e do THINK! britânico em novembro aqui no Brasil. Se tudo der certo, o DENATRAN convidará ambos para o Seminário Nacional que eles estão planejando.
    Abraço a todas, Biavati

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  4. Olá, Daniela,

    Muito obrigado pela participação e pelos elogios. Valeu mesmo ter fechado o ano em Goiânia. Quem sabe não se abrirão novas frentes na década que se inicia? Seria uma forma, para mim, de agradecer por tanta coisa a esse povo e a essa terra.
    Abraço,

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