Dois passos adiante



Por que as campanhas públicas de segurança no trânsito são tão fracas no Brasil? Por que lhes falta a força e o impacto emocional das campanhas estrangeiras? Quantas vezes assistimos a mais uma nova campanha, para concluir que “isso não serve pra nada!!”?

O desconforto com a suavidade e o bom-mocismo das campanhas tupiniquins foi aumentando nos últimos anos por causa do Youtube – santo Youtube! Os produtores de conteúdo descobriram rapidamente que bastava disponibilizar seu acervo para que uma audiência global se encarregasse de multiplicá-lo ilimitadamente. Enquanto aqui no Brasil as escassas produções não eram compartilhadas nem mesmo entre os órgãos estaduais e municipais de trânsito (e ainda não são, com raras exceções), tudo o que norte-americanos, ingleses, franceses e australianos produziam, em qualquer mídia, passou a ser imediatamente disponibilizado para consumo universal. Não era apenas uma política de transparência do uso do recurso público, era também uma estratégia de marketing social poderosa afinada com seu tempo.

Escrevi diversas vezes que esse desconforto derivava de uma operação ideológica e, também, estética de eliminar das campanhas nacionais qualquer referência ao mundo real e, sobretudo, em revelar a violência do mundo real do trânsito. O amontoado de bobagens das diversas campanhas ao longo dos últimos 10 anos é produto de uma interpretação incapaz de lidar com a violência e, por conseguinte, de estabelecer um diálogo com a realidade vivida pelos cidadãos.

Toda campanha inteligente deveria partir dos dados da realidade e, claro, definir a quem se destina. Comunicação para “público geral” é uma preguiça do pensamento. Se quiséssemos realmente falar com os jovens, por exemplo, se tivéssemos o compromisso de mobilizar a atenção, a reflexão e, talvez, a atitude deles para o uso do cinto de segurança, por onde deveríamos começar? Expondo a verdade do que ocorre em uma colisão e as conseqüências da escolha de cada um. É o caminho que experimentaram duas campanhas nesse ano: a primeira produzida pelo Departamento Estadual de Trânsito do Espírito Santo (DETRAN/ES), a segunda pelo Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN).

A campanha “Eu decidi pela vida” do DETRAN/ES é uma produção sofisticada que “invade” o interior do veículo em colisão para demonstrar os movimentos dos ocupantes sem cinto de segurança. Esse foco na sequência real das colisões permite uma visualização importantíssima dos mecanismos da lesões graves e fatais. Ao invés de anunciar que o cinto deve ser usado porque protege, oferece-se um fundamento objetivo para se decidir pelo uso. Essa é a filosofia dos excelentes comerciais ingleses, por exemplo. Na campanha capixaba esse conceito serve a dois vídeos tratando do uso do cinto no banco dianteiro e ao uso do cinto no banco traseiro:

Na nova campanha “Segurança no banco de trás evita acidentes fatais” do DENATRAN nada é demonstrado dentro dos veículos. O foco é a colisão, a força do impacto, o realismo da explosão de energia. A compreensão da violência é imediata e a narrativa acelerada explicita a mensagem de que a atitude de não usar o cinto pode causar a morte e graves ferimentos nos companheiros de viagem. É uma grande novidade de discurso e de proposta estética que não merecia estar, aliás, incluída no site da campanha “sou legal no trânsito”, de 2009 .

Ambas campanhas partilham o cuidado extremo de não mostrar sangue nem ferimentos, nem choros ou gritos de dor. Seria necessário? Muito mais importante é o conceito comum de que os passageiros no carro são CO-responsáveis pela segurança – a viagem forma um contexto solidário, que dá pouca margem ao egoísmo usual de usar o cinto e ignorar o que fazem os outros ocupantes. O “cada um por si”, nesse caso, determina muitas vezes a morte ou a incapacitação física definitiva.

Chegamos à Semana Nacional de Trânsito de 2010, assim, com duas campanhas inovadoras e complementares – dois passos adiante na direção de uma linguagem significativa que engaje o público em mudar a história em um clique.

Teremos atingido os jovens? O alto grau de realismo, a precisão da narrativa e a velocidade das imagens conseguem mobilizar seu principal público? O que você pensa dessa nova abordagem da violência do trânsito?

© Eduardo Biavati e biavati.wordpress.com, 2008/2013.

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Publicado por

biavati

Sociólogo, escritor, palestrante e consultor em segurança no trânsito, promoção de saúde e juventude.

7 comentários em “Dois passos adiante”

  1. Pena que os governantes, diga-se (políticos), a maioria, envolvidos com falcatruas que obtem imensos lucros com os acidentes, são os responsáveis por elaborar as campanhas de prevenção de acidentes de trânsito!
    Se realmente quisessem diminiuir os acidentes e as mortes, fariam campanhas claras e impactantes, direcionadas ao zé povinho brasileiro, aquele mesmo, que ao ver um jornal, só lê a pagina esportiva, ou desliga a tv quando entra um programa cultural ou noticioso, só assistindo novela, futebol e big brother!
    Precisamos de campanhas diretamente voltada aos “monstroristas” brasileiros, aqueles que acham que toda a rua é um circuíto de formula 1 e que seu “veículo” é um carro de competição!
    Um abraço, meu parente!

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  2. Muito bons os 2 videos! Concordo que não adiantam campanhas leves, esteticamente bonitas e românticas, as pessoas não entendem e nem prestam atenção. Somente analises frias, sem exageros, como essas 2 podem causar o impacto necessario para que os mais jovens se lembrem disso quando entrando num carro. Uma iniciativa ótima, espero que esse apelo continue forte! Vou até mandar para meus sobrinhos lerem seu BLOG!
    Grande abraço!

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  3. O problema não é o grau de realismo das campanhas, e sim o seu conteúdo. Afirmar categoricamente, como está sendo feito, que o uso do cinto de segurança garante que não haja mortes nos “acidentes” trânsito, é totalmente mentiroso e imoral. Mentiroso, porque se sabe perfeitamente que o uso do cinto só reduz em 50% a probabilidade de morte dos ocupantes do veículo. É só pesquisar: dos milhares de mortos por ano em “acidentes” de trânsito no Brasil, quantos estavam usando o cinto? Só pra citar uma pesquisa recente nos EUA: entre 2001 e 2006, morreram 16000 pessoas devido ao uso de celular e de textos eletrônicos ao volante. Quantos desses estavam usando cinto de segurança? Ninguém parece reconhecer o fenômeno importantíssimo da “compensação de risco”, ou seja, quanto maior a segurança para os ocupantes dos veículos (e dos motoristas em particular), maior a propensão dos motoristas em se arriscar. E é por isso que eu chamo essas propagandas de imorais: ninguém se preocupa com os não ocupantes dos veículos. Pedestres e ciclistas são ignorados, só têm, para se proteger, a vigilância. A moral imoral dessas campanhas é simples esta: “motoristas e ocupantes dos veículos: usem o cinto de segurança e podem fazer qualquer barbaridade no trânsito, que nada vai acontecer com vocês”. Quando eu era garoto, meu pai tinha, pregado com um ímã no painel do carro, as fotos de mim e de minha irmã, com a frase “não corra papai”. Mesmo eu sendo bastante cético quanto à efetividade das propagandas de segurança no trânsito, eu acho que esta era muito mais certa do que as campanhas (des) educativas como essas de hoje.

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  4. Olá, Henrique,

    Bemvindo ao blog, obrigado pela participação.

    Eu não concordo com sua análise sobre as campanhas. Não há rigorosamente nada de imoral ou falso na afirmação de que “o uso do cinto evita acidentes fatais” porque é EXATAMENTE o que o uso do cinto proporciona: a redução entre 45 e 60% de lesões fatais nos ocupantes. Perfeito!! Ninguém diz que o cinto garante proteção absoluta, mas se o público acredita que essa redução seja de 100%, qual é o problema? O objetivo da campanha é elevar ao máximo o uso do mecanismo entre os ocupantes – a meta é que 100% deles usem o cinto; e sabemos estamos longe dessa meta nos bancos traseiros, onde 90% dos passageiros simplesmente ignora o cinto.

    Ao final, quantas vidas terão sido salvas pela crença de que uso do cinto evita 100% dos casos de morte? Quantos ocupantes terão morrido MESMO usando o cinto de segurança? É só pesquisar, como você bem diz. Onde estão, porém, essas pesquisas? Sem elas, sua acusação não se sustenta; nem mesmo se recorrermos à antiquada e limitada teoria da homeostase ou compensação de risco.

    A imoralidade da campanha, de acordo com seu raciocínio, é que ela induz os motoristas a acreditarem que estão 100% seguros e que, por conseguinte, a conduta no trânsito compensará a certeza da segurança com o máximo de riscos e barbaridades, ameaçando, como sempre, os mais frágeis… Eu sempre achei muito fraca e desprovida de sociologia essa teoria, mas vamos fazer um exercício de imaginação. Retiremos completamente todos os mecanismos de segurança passiva e ativa introduzidos nos veículos nos últimos 50 anos. Qual seria o resultado? Sentindo-se muito mais inseguros, os condutores passariam a… dirigir com muito mais atenção… maior prudência…. menor velocidade… abandonariam o celular e o texting… e protegeriam, por tabela, pedestres e ciclistas. Deve ser por isso que, nos anos 50 do Século passado, morria muito menos gente no trânsito – como ninguém tinha como compensar os riscos, todos se cuidavam bastante. Certo?

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  5. Os dois videos mostram claramente a importância do uso do cinto de segurança.

    A maioria das pessoas já usa o cinto de segurança quando está na frente, porém os passageiros de traz nao têm o costume de usá-lo. O video 2 mostra claramente o perigo de não usá-lo.

    Deveriam fazer mais campanhas que conscientizassem para o uso do cinto do passageiro que andam atraz e que fossem bem realistas, chocantes porque somos acostumados a visualizar em campanhas publicitárias o belo escondendo a realidade das consequências de um acidente de trânsito.

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  6. Na verdade os usuarios do transito, nao querem ser fiscalizados. Quem nunca ouviu alguem dizer: “como pode? Ele estava devagar!”. Ora, se estivesse devagar nao teria ocorrido o acidente. Tudo é motivo, para eximirmos de nossas responsabilidades. Devemos desnaturalizar o que gera violencia, reeducando os nossos comportamentos.

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