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Fantasmas, cambalhotas e alguma malícia no Dia de Finados


Véspera de Finados é sempre um bom momento para falar de trânsito: é feriado nacional, muita gente na estrada, e mal teremos terminado de orar pelos mortos quando soubermos que outros tantos ficaram pelo caminho. O Dia de Finados no Brasil é cada vez mais um dia dos mortos no trânsito.

Não é preciso muita criatividade jornalística para juntar os assuntos. É o que fizeram o jornal O Globo, na edição de primeiro de novembro de 2009 e, agora, a revista Veja, na edição do dia 2 de novembro de 2011, divulgando que atingimos o recorde histórico de mortos no trânsito em 2010 – 40.600 mortos, 111 por dia, 1 a cada 13 minutos!

Como chegamos a esse ponto?! Por que tanta violência? Quem dera pudessemos desvendar essa marca complexa de nossa sociabilidade e apontar firme para uma causa de tanta desgraça! Nada mais simples, para a Veja: é porque nós, brasileiros, bebemos e dirigimos veículos na maior cara-de-pau, como sempre fizemos, donde se conclui que a lei seca, em vigor desde 2008, não apenas foi inútil como instrumento de repressão de nossas irresponsabilidades no trânsito, como piorou as coisas desde então.

A Veja de Finados não tem dúvida, como não teve O Globo anos atrás, de que o mundo era muito melhor antes dessa lei que, de tão rigorosa, se tornou inaplicável porque os bêbados tupiniquins, sempre bem espertos, especialmente os que pagam advogados e doutores de plantão, consagraram o sambinha da malandragem cidadã: “ninguém pode ser obrigado a produzir prova contra si mesmo”. Na capital da República, terra de cidadãos exemplares e de defensores aguerridos dos direitos civis, 8 em cada 10 pessoas paradas em blitzes e que apresentaram algum sinal de embriaguez não assopram o bafômetro e se recusam a fazer qualquer outro exame para atestar o grau de alcoolemia. A lei que deveria impedir a bebedeira motorizada se transformou, assim, na interpretação da Veja, em salvo conduto para o pé-na-jaca, engordando tragicamente as estatísticas das mortes no trânsito.

A cambalhota ideológica da Veja mal disfarça, porém, a pobreza de sua simplificação do mundo. Quase metade das vitimas do transito estava alcoolizada quando perdeu suas vida em 2010, é verdade, mas o que a Lei Seca tem a ver com isso?  

Diante de Camaros, Porsches e Land Rovers e seus motoristas enlouquecidos, é conveniente esquecer que os pedestres ainda formam o principal contigente de mortos na ruas e é claro que nenhum deles e nenhum dos passageiros de motocicletas, carros, ônibus ou caminhões que tenha morrido alcoolizado seria salvo pela Lei. Digamos, então, que sobrem 20 ou 30% do total de mortos alcoolizados que eram condutores – mais ou menos 5.000 pessoas em 2010 – esses, sim, não deveriam ter seguido viagem se a aplicação da Lei pelos agentes de fiscalização fosse absoluta, integral e onipresente no território nacional.

O problema é que, para frustração de muitos, não vivemos em um Estado Policial. Amplas áreas urbanas e cidades inteiras estão fora das garras da ”Lei seca” – e assim será, se houver estratégia e alguma inteligência. Muita gente continuará bebendo e dirigindo nas cidades e nas rodovias e, infelizmente, continuarão acontecendo graves acidentes e mortes embalados, ou não, pelo álcool, como acontece nos Estados Unidos da América, na Inglaterra ou na Austrália, apesar do invejável poder de fiscalização e de campanhas públicas primorosas.

O mundo não ficou pior por causa da Lei Seca, como afirma a Veja, além do mais, porque o álcool é um apenas um fator CONTRIBUINTE das mortes e lesões no trânsito. Isso é tudo o que sabemos objetivamente. Trata-se de um contribuinte importante, sempre no topo da lista do mal, mas apenas um dentre muitos outros. Raramente alguém pode afirmar que o álcool CAUSOU um dado acidente. É por isso que se diz, quando há honestidade intelectual, que o álcool está ASSOCIADO ao acidente, ou que ele está ENVOLVIDO (no meio de muitas outras coisas) no acidente. Apenas como uma inferência indireta, forçando bem a barra, podemos dizer que aquela pessoa “morreu porque bebeu“.

Vale repetir: beber e NÃO dirigir é uma atitude de segurança muito importante, mas insuficiente para garantir a integridade e a vida da pessoa no trânsito. Ninguém morre “de álcool” no trânsito. O que mata as pessoas é a VELOCIDADE. Você morre porque estava solto no carro, sem cinto de segurança, boiando no banco traseiro, bêbado ou sóbrio, ou porque meteu um capacete na cabeça e sequer o prendeu abaixo do queixo, e esse veículo colidiu contra um obstáculo qualquer em velocidade.

Escapa ao jornalismo da Veja, como faltou ao do O Globo anos atrás, a capacidade, portanto, de investigar e reportar a realidade tal como ela é: COMPLEXA. Ambos poderiam focar, por exemplo, o movimento maciço de expansão da produção e do comércio das bebidas alcóolicas no Brasil – uma pista: o consumo de vodka aumentou quase 9% nos últimos 12 meses, promete ainda mais nos anos seguintes e um importante fabricante global dedicará uma campanha especial para o Brasil para anunciar a marca como “catalizadora de potenciais critativos” da galera… Ou poderiam questionar a que público-alvo se destina o expressivo investimento das montadoras de veículos globais que abrirão 9 novas fábricas no Brasil até 2014. Se tudo isso não confrontasse em demasia os patrocinadores (10% das páginas da última edição de Veja anunciam novidades da indústria automobilística, e duas páginas são dedicadas ao triunfo comercial da Volkswagen), ganharíamos outros elementos para compreender que a Lei Seca não é, nunca foi e nunca será um passe mágico para a segurança no trânsito. 

O que se percebe mais uma vez é que a conclusão do fracasso da Lei Seca já está pronta ANTES dos fatos e deriva, como escrevi anteriormente (Mas, entretanto, todavia… O primeiro ano da “Lei Seca”), de uma linha de pensamento que rebaixa ou simplesmente expurga os ganhos, ao mesmo tempo em que amplifica a insuficiência e até a ilegitimidade da lei. É um pensamento que nada acrescenta ao aperfeiçoamento das instituições ou da legislação, mas enche algumas páginas, oferece uma explicação simples do mundo, sacode alguns fantasmas e, ao cabo, conforta um bom grupo de leitores, justamente aqueles que se recusam a soprar bafômetros. Nenhuma novidade nisso: é apenas mais um produto à venda na prateleira de uma banca de jornal.


© Eduardo Biavati e biavati.wordpress.com, 2008/2013.

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Publicado por

biavati

Sociólogo, escritor, palestrante e consultor em segurança no trânsito, promoção de saúde e juventude.

13 comentários em “Fantasmas, cambalhotas e alguma malícia no Dia de Finados”

  1. Olá Biavati, parabéns pelo post. O crescimento da frota de veículos é algo exponencial e, acredito, veio para ficar. E com ele, a entrada em circulação de um volume parecido de novos motoristas, sabe-se lá com que nível de formação / informação. Infelizmente é mais fácil fazer carro do que formar motorista. Lembrando Darcy Ribeiro, será que estaremos fadados ao fracasso de necessitar diuturnamente do Estado para mediar todas as relações que ocorrem na circulação? Grande abraço.

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  2. Caro amigo, Eduardo!
    Parabéns pelo texto.

    Semana passada tivemos um acidente com dois mortos aqui em Ijuí. O fato teve grande repercussão, principalmente por se tratar do envolvimento de jovens que estavam retornando para casa após um jogo de confraternização com policiais rodoviários estaduais. Por sorte, os três passageiros do banco traseiro estavam com cinto de segurança. Em depoimento disseram que o motorista vinha a uma velocidade de 160 km/h, por isso, após solicitarem para o motorista que diminuisse a velocidade sem exito, se sentiram um pouco mais seguros. Realmente, os ocupantes do banco traseiro sobreviveram. Infelizmente os dois dos bancos dianteiros morreram na hora. Um foi alçado para fora do veículo (sem cinto).

    Houve uma comoção geral na cidade, pois os jovens eram bem conhecidos e a empresa em que eles trabalhavam era a distribuidora da AMBEV para a região. O que de certa forma nos deixa indignados é que tinham recebido palestra de cosncientização, tanto pela coordenadoria de trânsito, como da PRF a poucos dias anterior ao acidente. Isso causa um certo desanimo, pois trabalhamos arduamente desde as series iniciais até o ensino universitário para conscientização de crianças, jovens e adultos sobre a direção e álcool. Com certeza, só pela educação, sem que a fiscalização seja efetiva, não vamos parar com essa mortandade em nosso trânsito. Em nosso município com um pouco mais de 78.000 habitantes, essas mortes já somam 18 mortes no ano.

    Eu perguntei para um repórter o que ele achava que aconteceria na cidade se tivesse o notícia de que haviam morrido duas pessoas de dengue. O cara disse ” com certeza fechariam as entradads da cidade e ninguem mais viria pra Ijuí”. Eu pergunto: Quantas pessoas morrem de dengue no país por ano? Não que não tenhamos que nos cuidar e evitar a proliferação do mosquito transmissor, mas porque os acidnetes não chamam tanta a atenção das autoridades, mesmo matando mais de 40.000 por ano? O quê mais precisa acontecer? Por favor, nós, especialistas, educadores, afetos diretamente com a área de trânsito, precisamos nos mobilizarmos de uma forma mais contundente para que a legislação realmente sirva para ajudar a diminuir esses números de mortes no trânsito. Um grande abraço.

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  3. Oi, Bira!

    Não há razão para desanimar!

    A educação é um processo poderoso mas, não se iluda, limitado. Ela só pode ir até onde o conhecimento é capaz de mobilizar a ação e talvez tenha sido exatamente isso que salvou e protegeu a vida dos rapazes no banco traseiro. A educação tem limites e, antes que pensemos que a solução é entupir o mundo de radares, câmeras e policiais, a fiscalização também: talvez nem toda fiscalização do mundo teria impedido o desfecho trágico ocorrido. Por outro lado, minha impressão nesses meses no Rio Grande é que há um problema gravíssimo de insegurança nas rodovias do Estado.

    Não coloque todos os ovos na cesta da legislação: ela não trará a consciência de que 40.000 mortos é um ônus inaceitável. Nem mesmo se chegarmos a 100.000 mortos deixaremos de pensar que tudo acontece “por acidente”. As pessoas PRECISAM acreditar que é “por acidente” para justificar a vida que levam no dia-a-dia do trânsito – é bem desconfortável pensar que cada um de nós é cúmplice dessa violência. Por isso mesmo, eu não perderia uma única oportunidade de falar por todos os meios de comunicação disponíveis que NÃO foi um acidente, de esclarecer mil vezes que a morte ou a lesão nascem de uma ESCOLHA e de uma ATITUDE. A educação, nesse caso, salta pra fora da sala de aula e assume um papel público que você e os colegas têm por dever sustentar. Buenas, em breve passo por Ijuí e lhe aviso antes. Abraço,

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  4. Olá, Marcos!

    Boa lembrança do Mestre Darcy Ribeiro. Deveríamos reler Darcy Ribeiro!
    Acabei lhe deixando na mão nos últimos dias de Outubro, mas é que juntei mil trabalhos com uma gripe e um período de tosse daqueles! Alguma indicação de uma boa solução de raiz paraense?? Houve tempo para enviar algo para o MS? Para 2012: origem – Porto Alegre.

    Abraço,

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  5. Caro Eduardo Biavati.
    Foi uma honra conhecê-lo em Recife 23/09/2011 por ocasião do Seminário de Educação no Trânsito.Cada texto ,que leio de sua autoria me possibilita um aprendizado cada vez maior. Estou levando seus comentários para sala de aula no curso de direção defensiva, e com meus alunos postulantes à PPD, estabelecemos um debate. Digo: Agora, o momento Eduardo Biavati. Obrigada.

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  6. Olá, Maria de Fátima,

    Bemvinda ao blog!

    Eu gostei muito da palestra e do Seminário em Recife – foi um fechamento e tanto da Semana Nacional de Trânsito!

    Bom, fiquei lisonjeado aqui com o “momento biavati” rarara, muito obrigado mas as coisa só valem a pena mesmo quando elas movem o pensamento, inspiram, incomodam, provocam. O blog tem um pouco esse objetivo de levantar questões, é um exercício de perguntador porque quem nao sabe perguntar nunca encontra resposta alguma, certo?

    Espero retornar a Recife em 2012. Deixei algumas idéias com o pessoal da Prefeitura e também do DETRAN. Vamos ver se conseguimos desenvolver um trabalho juntos. Abraço,

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  7. Boa noite Biavati,

    parabens pelo post,se a lei fosse aplicada como deveria e nao houvesse o pagamento de fiança, seria um alivio para todos, mas há brecha nas leis, como desta semana em São Paulo, atropelou e matou duas pessoas,pagou fiança de R$6.000 e foi liberado, é muito fragil as nossas leis, e ficam preocupados com peliculas escuras nos veiculos conforme a lei 254 de 2007 que começou a vigorar em 11 de julho, que dificulta a dirigibilidade do carro, mas dirigir alcoolizado nao tem problema, isso é uma vergonha,tirar vidas pode,ter privacidade nao…nao tem cabimento isso,estamos valendo muito pouco.

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  8. Olá, Marcelo,

    É isso aí: não há, nunca haverá, lei SEM brechas, porque elas são produtos humanos e porque sempre há espaço para interpretações díspares. A lei, em si, é imperfeita e o mesmo vale para a aplicação da lei. A fiscalização sempre será ainda mais imperfeita do que a lei. Importante é mantermos a vigilância crítica de tudo isso para que possamos dar um novo passo – é um exercício de nadar contra a maré. Cansa, nem todo mundo está a fim, mas vencemos a onda quando queremos (coletivamente).

    Abraço,

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