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A velocidade nos torna desiguais no trânsito – Entrevista ao DETRAN | ES


Detran|ES – Em sua opinião, qual é o maior desafio para a redução dos acidentes de trânsito?

O maior desafio é a integração intersetorial das políticas públicas. Essa é a essência da “Década Mundial de Ação para a Segurança no Trânsito 2011-2020”, convocada pela ONU. Integração exige compartilhamento de poder, exige soma de inteligências e, sobretudo, a compreensão de que a morte e a lesão no trânsito são responsabilidades compartilhadas tanto pelos cidadãos como pelos gestores públicos. 

Detran|ES – No caso específico do excesso de velocidade, o que pode ser feito para que os motoristas respeitem a legislação? As cidades brasileiras estão se preparando para lidar com a prioridade ao transporte coletivo, pedestres e ciclistas?
O controle da velocidade é um passo fundamental para a redução das mortes e das lesões no trânsito. A violência do trânsito é função DIRETA da velocidade dos deslocamentos no sistema do trânsito. Nós ainda não entendemos nem fomos capazes de formar um consenso social de que a velocidade nos torna desiguais no trânsito – quanto maior a velocidade, maior a fragilidade dos usuários mais vulneráveis: os pedestres, os ciclistas e os motociclistas.

Queremos mesmo integrar as bicicletas no trânsito? Queremos mesmo incentivar as pessoas a caminharem na cidade? Então, teremos que baixar substancialmente os limites de velocidade dos veículos motorizados – inclusive do transporte público. Se queremos mesmo cidades melhores, mais sustentáveis e mais seguras, teremos que maximizar o controle da velocidade no trânsito e esse é um desafio político que praticamente nenhuma cidade brasileira enfrentou até o momento. 

Detran|ES – Qual é o papel da educação na formação dos futuros motoristas?
A educação para o trânsito no Brasil ainda não encontrou um lugar na agenda da educação do cidadão – talvez esse tenha sido nosso menor avanço na última década. Nós temos que abandonar o lamento infinito de que as escolas e os professores não reconhecem a importância da segurança no trânsito e nos questionar onde temos falhado em construir a importância desse tema. Falhamos, para começo de conversa, em “vender” a educação para o trânsito como um projeto político-pedagógico que converse com as outras temáticas especialmente da saúde: poderíamos falar de segurança no trânsito a partir do trabalho escolar de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e HIV? Poderíamos falar de segurança no trânsito a partir do tema muito mais amplo da formação de hábitos de saúde? Sim, essa seria minha aposta: demonstrar que o trânsito é apenas uma dimensão constituinte da cidadania.

Detran|ES – Como o senhor avalia a ideia de punição mais rigorosa para motoristas que dirigem depois de beber?
Não concordo que a punição da conduta de beber e dirigir tenha que ser mais rigorosa – basta que ela aconteça efetivamente e isso hoje confronta a capacidade gerencial de execução não apenas dos órgãos gestores de trânsito do país, mas também da Justiça brasileira. Nós já temos uma legislação rigorosíssima que estabelece, na prática, a proibição do consumo de qualquer quantidade de álcool pelos condutores de veículos. Basta aplicar a fiscalização dessa proibição, o que nos leva de volta à questão da obrigatoriedade de uso do bafômetro – que está aguardando uma decisão final do STF – e também à aplicação hábil e útil da suspensão da habilitação do condutor transgressor. Os condutores deveriam temer seriamente perder a habilitação, mas não temem – não temem sequer continuar dirigindo sem a habilitação, porque contam com a fragilidade e a insuficiência de vigilância do poder do Estado.

Publicado por

biavati

Sociólogo, escritor, palestrante e consultor em segurança no trânsito, promoção de saúde e juventude.

Um comentário em “A velocidade nos torna desiguais no trânsito – Entrevista ao DETRAN | ES”

  1. Ei Eduardo,

    Há uma tendência para aumento de velocidade decorrente de alguns fatores, tais como:

    1. A melhoria da qualidade dos pavimentos urbanos e rodoviários. Nesses casos, a implantação de sistemas de controle de velocidade fica praticamente obrigatória. Em geral os órgãos de trânsito não fazem pesquisas pós intervenção para verificação se as mudanças efetuadas contribuíram ou não para o aumento da segurança. Limitam-se em constatar melhorias na fluidez;

    2. Perfil da frota. Há muitos carros circulando em áreas urbanas com potência para rallys. Os excessos de velocidade ficam mais evidentes à noite e quem circula nesse período sente-se mais inseguro, apesar do menor volume de tráfego. Alie-se a isto a “fissura” dos motoristas em testar suas máquinas. Certa vez em BH, na madrugada na zona sul, um BMW colidiu com um Fiat básico parado em fila dupla na porta de um restaurante. O cara da BMW desceu e foi falando: isto não é hora de Fiat estar na rua. Simples assim;

    3. A percepção de que a rua, em vez de ser espaço de convivência, é espaço de risco e de violência. Ninguém espera fazer amizades ou ter alegria ao fazer um deslocamento. O que interessa é o ponto de partida e o de chagada. O que está no caminho é visto como impedância.

    O controle da velocidade via educação, isto é, introduzir na grade curricular a educação de trânsito para que os alunos de 5 aos 17 anos tenham discernimento sobre comportamento seguro antes de se habilitarem a dirigir, ainda é promessa e levará tempo para verificação de resultados.

    Concordo com você com relação ao controle de velocidade como forma de diminuir o número e a gravidade dos acidentes. A assimetria de comportamento da população em relação ao controle de velocidade faz com que uns reduzam e outros não, o que muitas vezes provoca o acidente, ou seja, a diferença de velocidade dos veículos em circulação é fator de causa de acidentes.

    A fiscalização também é assimétrica e com isto gera toda uma desconfiança sobre as reais intenções que permeiam o discurso da segurança, sendo a propalada indústria da multa um de seus aspectos, assim como uma desigualdade no que tange às possibilidade de submeter as pessoas ao cumprimento da lei. No geral os adultos sabem as regras. Elas não se convenceram de que cumpri-las é o melhor caminho.

    Investir em educação é a melhor opção, ainda que tenha resultados a médio e longo prazos. Nesse sentido comungo com Darcy Ribeiro na esperança que a educação produz, ao mesmo tempo em que divido com ele a dúvida sobre se somos um país fadado ao fracasso. É isso.

    Grande abraço e parabéns.

    Marcos Evêncio.

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