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“Temos que reequilibrar a distribuição do espaço público” – Entrevista ao DETRAN | RS


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Todos somos pedestres: a maioria de nossas viagens diárias começa e termina a pé. Pedestres correm risco de morte, ferimentos e incapacitações, entretanto, por causa da desatenção às suas necessidades e do favorecimento de meios de transporte motorizados. A cada ano, 270.000 pedestres perdem a vida nas ruas e estradas no mundo. Milhões sobrevivem com ferimentos ou sequelas permanentes. Vamos tornar a caminhada segura para todos? Que tal começar entendendo que a segurança é uma RESPONSABILIDADE COMPARTILHADA?

Acontece de 6 a 12 de maio, a II Semana Mundial de Segurança no Trânsito das Nações Unidas (ONU), dedicada `a seguranca dos pedestres. A Semana visa chamar a atenção para as necessidades dos pedestres; gerar ação sobre as medidas para protegê-los e contribuir para alcançar a meta da “Década de Ação para Segurança Viária 2011-2020” para salvar 5 milhões de vidas.

Sob o lema “fazendo um caminhar com segurança” (making walking safe), a II Semana da Segurança no Trânsito das Nações Unidas mobiliza uma serie de eventos no Brasil e, no Rio Grande do Sul, o DETRAN|RS comandará atividades publicas, campanhas especiais e a participaçao de diversas organizacoes da sociedade civil. Contribuindo para esse esforço, elaboramos uma conversa, em forma de entrevista:

Detran|RS – A existência de projetos a favor e contra o aumento do limite de velocidade nas vias urbanas demonstra que a sociedade não está coesa em torno do tema. O que você acha desta questão?
É excelente que essa discussão tenha encontrado espaço no Poder Legislativo de Porto Alegre. Essa é uma discussão que todas as cidades deverão enfrentar, inevitavelmente, não apenas no Brasil como no mundo. Qual será a velocidade máxima que permitiremos nas ruas de nossa cidade? Essa é uma questão que toca diretamente ao nosso modo de viver coletivamente. Qual é a velocidade que permite CONVIVER, assegurando a todos, pedestres ou ciclistas, motoristas ou motociclistas, o maior grau de segurança no trânsito? Muitas cidades européias estão buscando limites de 30 km/h. É pouco? É muito? A velocidade do trânsito deve ser aquela que permita a melhor circulação sem ameaçar por isso a vida e a integridade das pessoas mais frágeis.

Detran|RS – Medidas como restringir a circulação de veículos em algumas áreas ou horários são medidas eficazes?
A restrição da circulação dos veículos motorizados em algumas vias da cidade ou em horários específicos testemunham nosso fracasso em construir uma cidade na qual a mobilidade dos diversos sujeitos acontece do modo mais justo. Ao contrário disso, fizemos cidades para o reinado absoluto de um único meio de transporte: o veículo automotor. Eliminamos calçadas, confinamos os pedestres num fiapo do sistema viário, asfaltamos tudo o que era possível, expulsamos as bicicletas da paisagem e encontramos a insustentabilidade no fim do túnel. Vivemos de modo tão insustentável que agora precisamos restringir a circulação, fechar o acesso, impor limites de horário, mas essas são apenas medidas de transição. O que ainda teremos que fazer é reequilibrar a distribuição do espaço entre todos, do modo mais equânime possível.
Detran|RS – Mas em algumas cidades as avenidas estão sendo transformadas em parques e calçadões.
É verdade – essa é a revolução de Nova Iorque nos últimos anos: ao invés de cruzamentos impossíveis e hostis, praças, calçadões; ao invés de vagas de estacionamento para carros, uma ciclovia ligando a cidade em todas as direções. Mas é preciso ainda mais do que isso. É preciso que a circulação aconteça de forma não hostil, e isso é impossível quando a coletividade aceita ruas com veículos circulando a 50 ou mesmo 60 km/h. Pouca gente acredita, mas essa velocidade impede o compartilhamento da vida urbana com pedestres e ciclistas.
Detran|RS – Como sempre, concluiremos que se trata basicamente de uma questão de educação?
Não, essa é uma velha conclusão que não resolveu nossos dilemas mais importantes. O risco que o pedestre corre no trânsito, em uma simples travessia de rua, não é fruto da falta de educação simplesmente – ele é produto de um sistema viário que, primeiro, inviabilizou a segurança do pedestre, restringindo-lhe a mobilidade, desvalorizando sua posição, desprivilegiando sua presença nas ruas. É preciso mudar o projeto viário, é preciso mudar a legislação da velocidade, é preciso fiscalizar as condutas, publicizar o novo contexto com campanhas inteligentes e, então, também educar pedestres e todos os demais usuários.
Detran|RS – Há experiências de sucesso em outros países?
Sem dúvida. Há cidades de porte médio na Inglaterra, na Espanha e na Alemanha que já adotaram em todas as suas ruas o limite de velocidade máximo em 30 km/hora. Entre outras justificativas, está a econômica: a antiga experiência de fazer “bolsões” ou zonas de velocidade diferente na mesma cidade complica e encarece a fiscalização. Está em processo a formalização de uma proposta de lei, que já conta com milhões de assinaturas, a ser apresentada ao Parlamento Europeu para a adoção uniforme de uma velocidade de 30 km/h nas vias urbanas de todos os países membros.
Detran|RS – Por falar em via urbana, como se integra aqui no Brasil a questão da velocidade máxima em vias urbanas e não-urbanas?
No Brasil, o desenvolvimento urbano se deu muitas vezes conectando rodovias de trânsito rápido ao ambiente urbano. Muitas estradas adquiriram aspecto de avenidas, mais do que de rodovias. Assim, rodovias concebidas exclusivamente para veículos motorizados foram sendo paulatinamente compartilhadas por todos os demais usuários, porém de forma perigosamente marginal, com ciclistas e pedestres, até mesmo escolares.
Detran|RS – Em que outras instâncias a velocidade é estimulada?
Somos filhos do mito da velocidade, da mobilidade ilimitada! É disso que fala toda a publicidade de veículos, em todos os lugares do mundo: o carro é um veículo que sempre circula em ambientes irreais, estradas perfeitas, em meio a paisagens selvagens, ruas desertas em cidades desumanizadas. Não se vende a idéia da velocidade sem se vender também a idéia de que tudo em volta existe para a realização do desejo do comandante da velocidade. As ruas estão a serviço desse desejo, mesmo que isso seja incompatível com a vida ao redor.
Detran|RS – Como estamos preparando nossas crianças para viver neste ambiente?
Dizendo: “Menino, sai da rua! Isso não é lugar de criança!” Ou seja, estamos criando uma geração dissociada da cidade, sem convívio, sem intimidade com ela. Fica difícil depois dizer: “vamos lá, pegue sua bicicleta e pedale!” Os adultos e os pais completaram o processo de expulsão dos pedestres do ambiente de convivência na cidade, porque realmente havia e há perigos imensos a serem evitados. O que não percebemos é que isso não tornou criança nenhuma mais segura no trânsito: a maior parte das crianças brasileiras até 10 anos de idade morre no trânsito como passageira de veículos ou pedestres. Não eliminamos a insegurança e, pior, fizemos uma geração de crianças inativas e, por isso mesmo, cada vez mais doentes e vulneráveis à obesidade, diabetes e problemas precoces de coração. Devíamos estar formando gente para reconquistar a cidade, e aqui também entra o questionamento dos limites de velocidade.
Detran|RS – As crianças são as principais vítimas no trânsito?
Não tanto quanto os idosos. O foco excessivo na proteção das crianças ignora que, no Rio Grande do Sul, mais da metade dos pedestres que morre no trânsito tem mais de 65 anos. A população se torna cada vez mais velha, mas o ambiente urbano não está preparado para as necessidades específicas desta população, cada vez mais expressiva não apenas em termos quantitativos, mas também em participação na vida social.
Detran|RS – A importância do pedestre então está relacionada à sua fragilidade no trânsito?
O fato é que a temática do pedestre é um calcanhar de Aquiles das políticas de trânsito. Mas se não formos capazes de pensar uma cidade que proteja o mais frágil, seremos uma sociedade doente, desviada de seus propósitos humanos. A Semana de Segurança do pedestre é uma oportunidade global de refletirmos se estivemos à altura do compromisso ético de proteger os mais frágeis.
Entrevista publicada em 06/05, no blog da Década, mantido pelo Departamento de Transito do Rio Grande do Sul

Publicado por

biavati

Sociólogo, escritor, palestrante e consultor em segurança no trânsito, promoção de saúde e juventude.

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