Ruim da cabeça e doente do pé. Breves notas sobre mobilidade e saúde no Brasil


 

7o ano da Escola Benedito Mattarazo, da rede municipal de São José dos Campos/SP
7o ano da Escola Benedito Mattarazo, da rede municipal de São José dos Campos/SP

O Ministério da Saúde publicou recentemente o relatório final da oitava edição (2013) do VIGITEL (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico),  pesquisa anual realizada desde 2006 em todas as capitais dos 26 estados brasileiros e no Distrito Federal.

O VIGITEL é uma das muitas fontes de conhecimento epidemiológico e de investigação empírica, cientificamente estruturada, sobre a saúde da população que costumam passar ignoradas, quase sempre invisíveis aos olhos dos profissionais e gestores do trânsito. Propomos aos quatro ventos o compartilhamento de responsabilidades, promovemos a formação de comitês intersetoriais mas, de fato, mantemo-nos ainda em nossos universos particulares de preocupações: o trânsito fala de trânsito, o transporte fala de transporte, e assim por diante. Os resultados do VIGITEL, ao contrário, ensinam que a compreensão sincrônica e complexa da realidade é uma necessidade que antecede a intervenção e, especialmente, a política pública. É a lição, também, que ensinam as Pesquisas Nacionais da Saúde do Escolar (PENSE), realizadas pelo Ministério da Saúde e pelo IBGE em 2009 (comentada aqui há alguns anos) e 2012, ambas leituras obrigatórias para qualquer um interessado em promover a segurança viária e a saúde dos nossos jovens adolescentes.

O VIGITEL é uma ferramenta poderosa de monitoramento dos principais determinantes das doenças crônicas não transmissíveis no Brasil. O tabagismo, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, dietas inadequadas e a inatividade física formam um conjunto de fatores de risco altamente relevantes para a ocorrência e agravamento dessas doenças crônicas, que concentraram 72% do total de mortes em 2007 no Brasil, com destaque para as doenças do aparelho circulatório (31,3% dos óbitos), as neoplasias (16,3%) e o diabetes (5,2%).

O VIGITEL investiga, então, como se distribuem os fatores de risco e os fatores de proteção para essas doenças entre homens e mulheres adultos (idade igual ou maior do que 18 anos), por faixa etária e por faixas de escolaridade nas populações das capitais dos 26 estados da Federação e do Distrito Federal.

O inquérito telefônico anual busca estabelecer a frequência do hábito de fumar, do excesso de peso, do consumo de refrigerantes, doces e alimentos gordurosos, da inatividade física, do consumo de bebidas alcoólicas, e da referência de hipertensão arterial, diabetes e dislipidemias ao diagnóstico médico. Esses são os fatores de risco eleitos pelo VIGITEL.

Em oposição aos fatores de risco, determinantes bem conhecidos das doenças crônicas, o VIGITEL pesquisa como se distribui a freqüência de alguns fatores de proteção, não menos conhecidos, que podem contribuir para a prevenção ou redução da gravidade dessas doenças: protege-se bem quem pratica atividade física, tanto no tempo livre como no deslocamento para o trabalho e para a escola, quem consome frutas, hortaliças e feijão, e quem cultiva o monitoramento por exames para detecção precoce de tipos comuns de câncer.

Não deixe passar batido: a atividade física no deslocamento para o trabalho e para a escola diz respeito necessariamente à mobilidade ativa do indivíduo: a pessoa caminha e/ou pedala no trajeto de ida/volta para o trabalho ou para a escola. Qualquer outra forma de mobilidade, motorizada, está excluída da noção de atividade física relevante (ou seja, uma atividade física de intensidade moderada). A mobilidade motorizada é uma forma de inatividade física e, por conseguinte, de sedentarismo e deveria ser avaliada como um fator de risco para as doenças crônicas.

A mobilidade ATIVA das populações nos deslocamentos para o trabalho e para a escola, ao contrário, constitui um fator de PROTEÇÃO das doenças crônicas não transmissíveis. Interessante. É plausível que a mobilidade ATIVA seja um hábito de saúde para o qual concorrem diversos outros hábitos dos sujeitos, formando, assim, um amplo arco transversal de PREVENÇÃO. Muito interessante.

Desde 2010, o VIGITEL investiga o padrão de atividade física no deslocamento considerando “os indivíduos que se deslocam para o trabalho ou para a escola de bicicleta ou caminhando (por pelo menos uma parte do trajeto) e que despendem pelo menos 30 minutos diários em cada percurso de ida e de volta, pelo menos 5 dias da semana”. O indivíduo ativo fisicamente no deslocamento soma 150 minutos, no mínimo, de atividade de intensidade moderada por semana. Estamos falando de alguém que é realmente um pedestre ou um ciclista urbano.

Pois, então, o que nos conta o VIGITEL, entre 2010 e 2013 (os relatórios finais das pesquisas podem ser obtidos nos links seguintes: 2010, 2011, 2012, o relatório final dos resultados de 2013 ainda não estão disponíveis publicamente pelo Ministério da Saúde), da evolução do hábito da mobilidade ativa entre os brasileiros moradores das capitais dos Estados da Federação e do Distrito Federal? Façam suas apostas: 

  • nossas políticas públicas mais gerais de mobilidade, de segurança viária e de planejamento urbano têm contribuído para a expansão ou para o encolhimento da atividade física dessas populações nos principais deslocamentos cotidianos, para o trabalho e para o estudo?
  • a atividade no deslocamento é uma característica particularmente masculina, menos frequente entre as mulheres, ou tanto uns como outros tem sido igualmente ativos ou progressivamente inativos em sua mobilidade cotidiana nos últimos quatro anos?
  • cidadãos com mais anos de escolaridade e, por conseguinte, maior grau de educação formal, cultivam hábitos mais saudáveis em seus deslocamentos para o trabalho e para o estudo do que os indivíduos que tiveram menos oportunidades educacionais?
  • entre 2010 e 2013, adultos mais jovens, com idade entre 18 e 34 anos, tem sido cada vez mais ativos na mobilidade, pedalado ou caminhado mais para o trabalho e para o estudo, contribuindo, assim, para a expansão de hábitos mais saudáveis na cidade ou, ao contrário, essa população está cada vez mais distante desses hábitos saudáveis?

Vamos começar pelo panorama mais geral das capitais dos Estados e Distrito federal entre 2011 e 2013. Deixamos de fora o resultado de 2010 para destacar o expressivo declínio da freqüência de atividade física no deslocamento (conforme definida acima, ou seja, somando pelo menos 150 minutos de caminhada/pedalada para o trabalho/estudo por semana). Esse declínio geral visível graficamente e, claro, quantitativamente, atravessa todas as demais categorias de análise, como se verá adiante.

Em 12 capitais, a população era mais ativa na mobilidade do que a freqüência nacional (17%) observada em 2011. De cada 10 residentes de Belém, 2 caminhavam ou pedalavam para ir e voltar do trabalho ou da escola.

Nos dois anos seguintes, porém, a frequência desse fator de proteção contra as doenças crônicas derreteu nacionalmente. Em 18 capitais e no DF, os adultos brasileiros se tornaram MENOS ativos na mobilidade, caminharam menos/pedalaram menos nos trajetos diários de ida e volta para o trabalho/escola. A freqüência desse hábito de saúde na mobilidade foi reduzida pela metade em Belém (13,7%) e praticamente se tornou insignificante em Palmas (5,1%) em 2013. Os extremos escondem, porém, outras quedas importantes: todas as capitais da região Sul (Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba) reduziram, também, pela metade (de 18 para 11% aproximadamente) a freqüência desse categoria de atividade física, ficando abaixo da nacional, e em São Paulo, maior cidade do país, apenas 13,6% da população em 2013 era ativa fisicamente em seus deslocamentos, enquanto quase 20% declararam esse hábito em 2011.

vigitel2010-2013.001

Em 2011, mais de 20% dos homens de 8 capitais (Rio Branco, Belém, Maceió, Porto Velho, Macapá, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre) afirmava que caminhava/pedalava nos deslocamentos para trabalho/estudo pelo menos 5 dias na semana. Apenas na cidade de São Paulo naquele ano esse hábito atingia essa freqüência (20,4%) entre as mulheres adultas e, além dessa capital, outras seis estavam acima do observado nacionalmente (17%). Uma população muito maior de homens era ativa fisicamente na mobilidade em relação às mulheres.

vigitel2010-2013.002

Dois anos depois, entretanto, nem homens, nem mulheres escaparam do processo geral de expansão da inatividade física na mobilidade. Entre a população feminina do Distrito Federal (de 16,8% para 9,3%), Curitiba (16,7% para 9,8%) e Palmas (de 9,8% para 4,5%), a redução foi praticamente de 100% na freqüência do atividade física nos deslocamentos entre 2011 e 2013. Tornaram-se muito menos ativas, também a mulheres de Porto Alegre (de 18,1% para 13,2%) e Florianópolis (de 17,9% para 11,9%) e, vale destacar, o mesmo ocorreu entre as paulistas, que de líderes na atividade em 2011 se alinharam com a minguante frequência nacional.

Entre os homens, a queda na atividade física no deslocamento foi igualmente significativa e, talvez, tenha reforçado a tendência geral de abandono de modos ativos de mobilidade, porque o hábito de caminhar/pedalar nos deslocamentos diários era bem mais frequente em 2011 entre os homens na maioria das capitais do que relatavam as mulheres. É claro que nada se compara à redução de 3 vezes na atividade física no deslocamento dos homens de Palmas no período, mas a freqüência dessa atividade entre os homens de Porto Alegre foi mais de 100% menor, praticamente idêntica ao que se observou entre os homens de São Paulo (redução de 22,3% para 14%) e do Rio de Janeiro (redução de 20,2% para 12,3%).

Nos últimos anos, os homens das capitais e do Distrito Federal tornaram-se, portanto, mais parecidos com as mulheres, na medida em que equalizaram-se a baixa e decrescente freqüências de ambos em torno do hábito de caminhar/pedalar. Homens e mulheres tornaram-se menos ativos e tudo indica que possivelmente tenham se tornado um pouco menos competentes para se proteger do surgimento e/ou do agravamento de várias doenças crônicas citadas anteriormente.

A curta série histórica de resultados do VIGITEL sobre a atividade física no deslocamento das populações (iniciada apenas na pesquisa de 2010) indica que nenhuma das capitais e nem o Distrito Federal proporcionou, entre 2011 e 2013, alguma solução de resistência que a diferenciasse da trajetória de achatamento da mobilidade ativa. Capitais do Sul ou do Nordeste, do Centro-Oeste ou do Sudeste ou do Norte, bastante diferentes sob muitos aspectos, registraram um declínio dessa mobilidade, algumas em escala impressionante, outras mais suavemente, quase mantendo um mesmo patamar no período, como foi o caso do Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

As cidades não resistiram à tendência, nem suas populações masculinas ou femininas: em 2013, os resultados do VIGITEL não permitiam atribuir qualquer diferença de gênero relevante, alguma forma de distinção nos hábitos de saúde promovidos pelo caminhar/pedalar. Ao contrário, nem homens, nem mulheres, em praticamente nenhuma cidade investigada parecem ter preservado a atividade física no deslocamento como um fator de proteção e prevenção. Quem sabe poderíamos esperar, então, pelo menos que as populações adultas mais jovens fossem bem mais ativas na mobilidade do que os grupos com mais idade?

De fato, em 2010, comparados aos adultos com mais de 55 anos de idade, a população com idade entre 18 e 34 anos era entre  2 e 5 vezes mais ativa fisicamente no deslocamento. Nenhuma novidade nisso, muito embora a disparidade aponte para questões que se tornarão cada vez mais rapidamente críticas no futuro próximo: o envelhecimento da população e a progressiva extensão da expectativa de vida dos brasileiros resultará provavelmente no aumento expressivo de pedestres mais idosos nas ruas das cidades, pedestres que, entretanto, vem se tornando MENOS ativos muito antes de atingirem 54 anos.

A novidade é outra:  talvez o resultado mais surpreendente do VIGITEL seja que as populações mais jovens também vem se tornando cada vez MENOS ativas, caminhando e pedalando cada vez menos nos seus trajetos diários para o trabalho e para a escola. Ao contrário do que poderíamos imaginar, a faixa etária mais jovem da população adulta, de 18 a 24 anos, tem sido a menos ativa desde 2010. E eles não estão sozinhos: entre 25 e 44 anos, a freqüência dos hábitos de mobilidade ativa vem sendo reduzida ano após ano, até que em 2013 desaparece qualquer diferença significativa entre um indivíduo de 19 anos, outro de 37  ou de 44 anos idade – todos igualmente inativos e tanto quanto alguém com 53 anos de idade.  

O gráfico reafirma que apenas 1 em cada 10 sujeitos, com idade entre 18 e 44 anos, em todas as capitais e no Distrito Federal caminha/pedala no trajeto para o trabalho/estudo dispendendo no mínimo 150 minutos na semana; praticamente ninguém, portanto, nem homens, nem mulheres, de qualquer faixa etária. Esse fenômeno é ainda mais forte entre 25 e 34 anos: tanto entre homens como entre mulheres dessa faixa etária, a redução da freqüência da atividade física no deslocamento atingiu quase 100% entre 2010 e 2013. vigitel2010-2013.003 Em todas as capitais e no Distrito Federal, a freqüência desse fator de proteção contra as doenças crônicas é decrescente desde 2011. Essa tendência não é alterada por qualquer diferença de gênero e, como vimos agora, vem se generalizando ao longo da vida adulta, não importando a idade, desde os 18 anos até, pelo menos, 55 anos, desde 2010. Seria quase desnecessário questionar se essa tendência à inatividade na mobilidade é compensando, de alguma forma, conforme o indivíduo tem mais acesso ao ensino formal e, portanto, mais anos de escolaridade. Vejamos qual foi a influência dessa última variável investigada pelo VIGITEL.

Maior educação se traduz em hábitos de mobilidade mais ativa e, por conseguinte, mais saudáveis, reforçando seu papel de fator de proteção contra doenças crônicas? É claro que… não, infelizmente ocorre justamente o contrário: quando mais anos de escolaridade, menor a freqüência de atividade física nos deslocamentos. Essa relação inversa está confirmada em todas as edições da pesquisa entre 2010 e 2013: a redução geral da freqüência de atividade física no deslocamento verificada nacionalmente, nas capitais, em ambos gêneros, em todas as faixas etárias, ocorre, também, em todas as faixas de escolaridade. vigitel2010-2013.004 Isso não significa, é claro, que a escola seja irrelevante para a formação e a promoção dessa atividade, mas o fato é que o maior acesso à educação não constituiu um fator de promoção da mobilidade ativa entre 2010 e 2013 e isso confirma, talvez, que a escola ainda não desempenha, ou desempenha ineficientemente, um papel de aliada estratégica da saúde da população.

Para concluir, é claro que o forte processo de desativação do caminhar/pedalar nos deslocamentos cotidianos, registrado pelo VIGITEL seria incompreensível sem a motorização, particular ou pública, dos deslocamentos e, por extensão, sem o crescimento da renda das famílias, dos salários, do emprego, do consumo, e de um ambiente de crédito financeiro abundante a juros baixos. Todos sabemos que essa motorização tomou a forma de uma avalanche de motocicletas em todas as capitais e no Distrito Federal, bem como em todos os demais municípios e regiões do país. Não apenas de motos, porém: entupimo-nos com muito mais automóveis, caminhonetes, caminhões de todo tipo (só não cresceu mesmo a frota de ônibus…estranho, não?). Nossa frota de veículos cresceu ininterruptamente desde o início do século, mas também cresceu a demanda (nem sempre a oferta ou a qualidade) pelo transporte público em todas as formas, sob trilhos ou sob pneus. Vivemos tempos de motorização e, preparemo-nos, estamos bem longe ainda do auge desse processo. 

Não é possível afirmar diretamente que alguém tenha se tornado mais doente por abandonar uma boa caminhada ou pedalada diária; é improvável, contudo, que a inatividade tenha contribuído para uma vida mais saudável e, sobretudo, para promover hábitos ativos entre crianças e adolescentes, cada vez mais sedentários e alheios às ruas. Adultos INATIVOS na mobilidade serão aliados de crianças e jovens ATIVOS? Como?

Publicado por

biavati

Sociólogo, escritor, palestrante e consultor em segurança no trânsito, promoção de saúde e juventude.

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