O Projeto Adolescente

por Eduardo Biavati
Hospital SARAH-Brasília, por Eduardo Biavati

Em 1994, o Centro de Pesquisas em Educação e Prevenção da Rede SARAH de Hospitais de Reabilitação concebeu uma nova proposta de educação de trânsito para jovens que tornasse o processo de reabilitação de vítimas de trânsito em instrumento para a formação de condutas de prevenção– o projeto adolescente.

O ponto de partida do projeto foi um convênio firmado com a Vara de Infância e Juventude do Distrito Federal, por intermédio do qual menores envolvidos em colisões de trânsito ou flagrados dirigindo sem habilitação passam a cumprir medidas socioeducativas de prestação de serviços à comunidade no Hospital SARAH-Brasília.

Posteriormente, um segundo convênio foi estabelecido com estabelecimentos de ensino médio, em que os alunos se inscrevem voluntariamente para participar do mesmo programa de prestação de serviços à comunidade, visando o desenvolvimento de uma pesquisa sociológica comparativa entre os dois grupos de jovens.

Estruturando o contato direto de jovens com o cotidiano da reabilitação do incapacitado físico, o trabalho tem por objetivo difundir conhecimentos acerca da fragilidade do corpo humano diante da magnitude de forças envolvidas no trânsito e das formas de incapacitação física que esse embate de forças pode gerar.

É por meio do contato direto com pacientes que se pretende fazer com que os adolescentes compreendam a fragilidade de seus corpos. Esse é o solo seguro, a partir do qual podemos falar de solidariedade social, de cidadania e também do cumprimento das leis.

Na medida em que esse contato confere visibilidade a conseqüências concretas da violência no trânsito, o programa pretende provocar uma redefinição de valores e uma modificação de atitudes do jovem que dele participa. É por meio do processo de reabilitação que o jovem descobre que estar habilitado para dirigir é mais do que saber leis e regras de trânsito.

Jovens no SARAH-Brasília, por Eduardo Biavati

 

O programa em ação

A cada dois meses, são recebidos dois grupos (infratores e voluntários) de participantes, compostos por, no máximo, dez membros cada. Os participantes cumprem um programa de atividades em jornadas de quatro horas, duas vezes por semana, totalizando assim uma carga horária total de 64 horas.

A primeira parte do programa consiste de uma série de quatro workshops. O principal objetivo de utilização dessa técnica é a apresentação e discussão dos conceitos centrais do programa: cidadania, espaço público, a biomecânica dos neurotraumas no trânsito — por exemplo, como ocorrem as lesões medulares e cerebrais numa colisão de trânsito, a magnitude das forças envolvidas e a fragilidade do corpo humano — e o processo de reabilitação e a incapacitação física. Discute-se, ainda, a realidade pós-hospitalar do grande incapacitado, como pode ser o caso dos portadores de uma lesão medular ou cerebral, as dificuldades encontradas em relação ao mercado de trabalho, ao convívio familiar, à sexualidade, às barreiras sociais impostas pelo preconceito e às barreiras arquitetônicas.

Na segunda parte do programa, os grupos de adolescentes desenvolvem um conjunto de atividades práticas que proporcionam o contato direto com pacientes em diversas etapas do processo de reabilitação. Esse é o momento em que o adolescente passa a participar da realidade concreta de um incapacitado físico, supervisionado por professores de Educação Física, professores hospitalares, bibliotecários, psicólogos, enfermeiros e terapeutas funcionais. Essa etapa confere ao participante do programa total visibilidade das conseqüências da violência que se realiza no trânsito.

As atividades práticas desenvolvidas pelos participantes do Projeto Adolescente incluem:

Criança no Centro de Criatividade, por Eduardo Biavati

(a) biblioteca volante. O adolescente é encarregado de selecionar livros e revistas e distribuí-las aos pacientes internados nas enfermarias. Em alguns dos casos, lê para os pacientes, em outros, auxilia aqueles que não têm condições de segurar o material de leitura. A biblioteca volante permite o convívio também com pacientes que estejam em período de pré ou pós-operatório e, por esse motivo, não podem participar de nenhum tipo de atividade física;

(b) educação física. O adolescente auxilia os professores de Educação Física em jogos e outras atividades destinadas ao treino para a utilização de cadeira de rodas. Nas atividades de Educação Física, o jovem pode perceber as dificuldades enfrentadas no dia-a-dia das pessoas que necessitam de cadeiras de rodas para sua locomoção e, ao mesmo tempo, presenciar e participar de momentos descontraídos, como o jogo de basquete em cadeira de rodas;

(c) hidroterapia. O jovem auxilia na colocação e retirada dos pacientes na piscina, assim como participa ou auxilia na prática dos exercícios propostos pelos profissionais. A atividade realizada no setor de hidroterapia permite que o adolescente interaja com pacientes portadores de diversos tipos de patologias em ambiente bastante propício ao contato direto de maneira menos formal.

Nos relatos colhidos ao final do período em que o jovem permanece no hospital, a descoberta da fragilidade de seu próprio corpo está claramente associada a uma mudança de ponto de vista sobre o universo do trânsito. A incapacitação física passa a ser entendida como uma conseqüência direta de cada escolha de ação no trânsito, como demonstram os seguintes depoimentos:

Aprendi a dar valor às pernas que eu tenho, a dar valor à coluna inteira que eu tenho. Aprendi dar valor a isso. Mas o que mais marcou mesmo foi a visão que eu tive dos pacientes aqui, dos problemas que eu vi aqui ao vivo. Tipo assim, que nem o rapaz que foi fazer hidroterapia, um cara de 22 anos, um cara igual a qualquer um, igual a qualquer rapaz, e hoje está aí com uma lesão cerebral. Eu fiquei conversando com ele, e ele se parecia muito comigo, gostava das mesmas coisas que eu gosto, ia para o mesmo som que eu saio. Então, eu vi que do mesmo jeito que aconteceu com ele pode acontecer comigo.

Transgressão, norma e juventude

O Projeto Adolescente foi também o ambiente de uma investigação sociológica sobre juventude e trânsito. Essa pesquisa traçou um perfil comparativo dos grupos de jovens recebidos pelo programa. Identifica-se a prática de direção sem Carteira Nacional de Habilitação, é específica ao grupo de infratores, analisa as condições que permitem ao jovem iniciar-se na direção de um veículo automotor e determina as características da prática de direção desses jovens, particularmente sua noção de velocidade e consumo de álcool.

Para começar pelas conclusões, a fragilidade das instituições judiciárias e policiais é um elemento central da transgressão implícita no ato de dirigir dos jovens com menos de 18 anos. Transgride-se pela certeza da impunidade e da irrelevância da ascensão expressas de modo claro nos discursos dos adolescentes. Eles dizem assim:

na primeira vez, beleza, vai rolar só uma advertenciazinha. Você vai para o Juizado de Menores, o cara faz a ficha, arquiva o processo. Você vai no juiz, ganha uma bronca e não acontece mais nada.

Transgride-se também por se considerar ilegítima a lei que proíbe a habilitação antes dos 18 anos. E, além disso, por não se acreditar na eficácia dos critérios empregados no processo de concessão da Carteira de Habilitação. De fato, qual o custo da transgressão para esses jovens? Serem pegos em uma blitz policial?

A verdade é que são os jovens que monitoram o sistema de fiscalização e não o contrário. Vale dizer que esse monitoramento denota amplo conhecimento do modo de ação da Polícia e, por isso mesmo, da ineficácia desta ação. É importante destacar o fato de que estamos lidando com os jovens que manipulam muito bem a incapacidade de nossa sociedade em fazer cumprir suas leis. Em todo o caso, a transgressão é válida pelos benefícios diretos que proporciona e pelos custos mínimos e remotos que pode acarretar.

9 comentários em “O Projeto Adolescente”

  1. Sou aluna de Logística e Transporte na Fatec Zona Sul – São Paulo-Capital.
    O tema do meu TCC vai ser sobre educação de adolescentes para trânsito, visitei essa página quando estava fazendo as minhas pesquisas e fiquei muito bem impressionada com o trabalho de vocês. Campanhas como essa deveriam ser mais divulgadas e ampliadas pelo Brasil!
    Parabéns à todos que fizeram parte dela. São pessoas como vocês, que acreditam que o mundo possa melhorar, que fazem a diferença em muitas vidas.
    Denise

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  2. Olá, Denise,

    Bemvinda ao blog! Seu trabalho será sobre jovens e trânsito? Ótimo! Escrevo frequentemente sobre esse tema no blog. Faça uma busca por categoria e você encontrará vários posts, alguns abordando as campanhas públicas de prevenção, outros falando sobre a juventude em geral. Quando você terminar o trabalho, mande para eu ler. Abraço, Biavati

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  3. Fala, Eduardo. Esse projeto é simplesmente sensacional!
    Ainda falerei dele com você através do seu celular de 8 dígitos,
    vez que tenho interessses práticos nele e não seria de interesse
    para os demais discutir operacionalização. Não nesse momento. Minha
    questão é: a quantas anda o projeto e se ele já se espandiu ou pode
    ser espandido para outras praças. O pessoal aqui do Sarah BH
    replica o projeto? [ ]s. Marcos Evêncio.

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  4. Eduardo, depois de uma semana intensa falando sobre prevenção, me sinto a vontade para te dizer que realmente és uma pessoa especial. A repercussão imediata de tuas palavras, foram motivo de longas conversas nos almoços de família e roda de chimarrão entre amigos. Fico com a sensação de que estamos no caminho certo! Um abraço carinhoso e obrigada pela atenção com nossa cidade!

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  5. Olá, Tatiana,

    Eu é quem tenho que agradecer a recepção, a organização e o ótimo público que vocês reuniram – sem tudo isso, as palavras teriam vida curta, mas eu sei que atingimos o objetivo de mobilizar mentes E corações para uma reflexão e, se tudo der certo, para atitudes de autocuidado mais constantes e melhores. Pela atenção nos olhares das várias turmas, não tenho dúvida de que isso nós realizamos em Guaíba. Abraços a todos da Secretaria e para todas as professoras. Em breve, tem mais!

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  6. Olá Biavatti
    Estamos desenvolvendo o projeto PARTY aqui em Campinas (acesse http://www.emdec.com.br/eficiente/sites/portalemdec/pt-br/site.php?secao=party)
    Trata-se de um Programa de Prevenção ao álcool e eventos relacionados ao Trauma em Jovens, onde 80 jovens, a cada 15 dias, são levados ao HC da Unicamp e lá passam por palestras, visita às enfermarias do Trauma e conversam com pacientes em reabilitação. Do segundo semestre do ano passado até hoje, conseguimos levar 1500 jovens.
    Como você diz em seu artigo Cubo Mágico, precisamos discutir de formas diferentes educação para o trânsito com esse público tão especial … nossos jovens. Um abraço e parabéns pelo seu trabalho, acompanho e adoro.

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  7. Bom dia Eduardo, parabéns pelo sensacional projeto, gostaria de saber detalhes sobre a possibilidade de trazer o projeto, todo ou somente parte dele para a minha cidade,pois sou chefe da Ciretran local.
    A iniciativa é fantástica e com certeza os resultados sólidos.
    Obrigado.

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  8. Olá, Anderson,

    Bemvindo ao blog!

    O projeto adolescente foi um laboratório importantíssimo de experimentação de conteúdos e diálogos com o público jovem. Eu vou ligar para voce amanha e conversamos sobre como Laranjeiras poderia estruturar uma versão desse trabalho. Abraço,

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