Santiago no pedal. Bom para todos?

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Santiago do Chile é um fenômeno latino-americano de explosão do uso urbano da bicicleta. O número de viagens diárias feitas por ciclistas vem crescendo a 20% ao ano, mais ciclistas na ruas garantiram menos mortes e acidentes com ciclistas e o sistema de bike-sharing não para de expandir para mais bairros.

A rede de ciclovias (de matar de inveja a maioria das cidades brasileiras) sofre, porém, de muitas deficiências bem conhecidas: as vias terminam abruptamente, contornam postes de luz, atravessam calçadas e pistas irregulares, ao lado de veículos cuja velocidade máxima não foi revista nem reduzida.

Faltou espaço, ocuparam-se as calçadas!

Bike-sharing é bacana, ciclovias são importantes, mas se é para avançar além dos discursos modernos, será preciso, também, reclamar de volta o espaço, o privilégio, e sobretudo parte do orçamento público que os veículos motorizados particulares usufruem. A promoção do uso da bicicleta não é um fim em si, ela é um meio de redesenharmos a cidade inteira para a maioria, os pedestres.

A lição de Santiago é que pouco interessa a segurança de uns e outros – segurança de todos só alcançamos quando respeitamos os mais vulneráveis.

 

Brevíssima nota sobre um veto presidencial

5263815401_25cb0eaa18_oAntes que se levantem vozes críticas, expressões de alta indignação, palavras ácidas e algum xingamento esquentado, vamos entender o que a Presidência da República quis dizer com o o veto integral à lei aprovada no Senado Federal que tornava obrigatória a pintura de faixas de pedestres no raio de um quilômetro em torno de escolas públicas e privadas situadas em área urbana. O projeto previa, ainda,  a construção de passarelas ou passagens subterrâneas para dar mais segurança a alunos e demais pedestres que circulam nas proximidades das escolas.

É verdade que o veto parece uma contradição, um passo atrás, quase uma afronta aos esforços nacionais dedicados ao sucesso da “Década Mundial de Ação pela Segurança no Trânsito 2011-2020”, conclamada pela ONU e da qual o Brasil é um alvo central, dada a conhecidíssima e vergonhosa alta mortalidade do trânsito em nossas ruas e estradas. Não se deixe enganar pelas aparências, contudo.

O veto é um recado muito simples aos outros entes da Federação (somos uma República FEDERATIVA, convém não esquecer disso). O recado é que faixa de pedestre na porta de escola é matéria deles, dos Estados e Municípios.

Além do mais, repare que se nem sequer um currículo e um piso salarial nacional dos docentes o Executivo da União consegue impor aos Executivos dos Estados e Municípios, tornar obrigatórias faixas de pedestre em torno de escolas que não lhes compete é mesmo um pó de pirlimpimpim.

A contribuição do Governo Federal à segurança das crianças no caminho da escola tem sido motorizar essa mobilidade, eliminando desse modo o risco de serem pedestres, distribuindo microônibus e ônibus amarelos maravilhosos ao custo de mais de 4 bilhões de reais nos últimos anos. Apenas em 2012, foram entregues 9.283 coletivos, ao custo de R$ 1,8 bilhão – contando-se somente os investimentos federais, um recorde absoluto.

O investimento tem sido grande, como se pode concluir, em uma certa política de geração de renda, produção industrial e mobilidade que, talvez, seja também uma política de segurança no trânsito, a longo prazo.

Registre-se com louvor que, desde 2011, o programa “Caminho da Escola”, comandado pelo FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), vem doando bicicletas, também, para municípios com até 5 mil alunos matriculados na rede pública de educação básica. Havia uma promessa de que 100.000 bicicletas seriam doadas em 2012 – bicicletas e capacetes, é claro, para reforçar a segurança dos estudantes, vejam que bacana – mas tudo isso a depender da AÇÃO das Prefeituras. Ou seja, bicicletas, capacetes, microônibus e ônibus não caem do céu como brindes da União: o poder municipal, se assim bem entender, tem que solicitá-los ao FNDE. Dá um certo trabalho, tem que querer para acontecer.

O veto foi uma resposta, portanto, a algumas velhas questões que nos assolam há tempos e, no caso da segurança viária, um cutucão no misterioso (des)uso dos 95% do total de multas arrecadas no país:

POR QUE Estados e Municipios são incapazes de pintar e manter pintadas faixas de pedestres no entorno de suas escolas, se isso é tão barato e tão normatizado pelos manuais há tanto tempo? 

Mobilidade ativa o caramba!

o discurso oficial pró-mobilidade ativa flagrado de calças curtas: um amontoado de palavras da hora, todas vazias, todas falseadoras de outras prioridades

Imposto sobre bicicletas no Brasil é de 40,5%, contra 32% dos tributos sobre carros

Estudo obtido com exclusividade pelo GLOBO revela que, na contramão da economia verde, alta carga tributária coloca ‘magrelas’ nacionais entre as mais caras do mundo

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Segurança rodoviária: questões para o debate | Entrevista

Em agosto, uma mesa redonda, da qual serei mediador, discutirá diversos aspectos da operaçao de rodovias durante o 8o Congresso Brasileiro de Rodovias e Concessoes (CBR&C) que acontecerá em Santos. E como pensar em uma operaçao moderna e sustentável alheia à promoçao da segurança dos usuários? Essa é a questao central de uma entrevista que concedi à Associaçao Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR).

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Agência ABCR – No livro “Rota de colisão”, de sua autoria, o senhor defende a criação de mecanismos de controle de velocidade como uma das formas de se diminuir a violência do trânsito nas ruas e estradas. Qual a realidade desse cenário hoje no Brasil?

Eduardo Biavati – O controle da velocidade é uma ferramenta fundamental da segurança viária. O que ainda evitamos reconhecer é que não dominaremos a violência, nem reduziremos as mortes e lesões no trânsito, de modo sustentável, enquanto não implantarmos uma rede extensa de monitoramento eletrônico dos limites de velocidade em nossas cidades e rodovias, a exemplo do que fizeram a França e a Espanha na primeira década do século XXI. Sofremos, porém, de uma profunda resistência política e cultural em dar esse passo, principalmente no espaço rodoviário nacional. As estradas brasileiras são, de modo geral, um deus-dará da velocidade e não é coincidência que metade das mortes no trânsito aconteça justamente em rodovias. É preciso controlar a velocidade, mas isso não basta: teremos que enfrentar, mais cedo do que imaginamos, o debate público e político de revisão e redução dos limites de velocidade nas vias urbanas, se quisermos realmente proteger os usuários mais vulneráveis e integrar a bicicleta ao compartilhamento das vias. É o que os países europeus estão colocando em discussão atualmente – um limite de 30 km/h nas áreas urbanas.

Agência ABCR – O grande volume de acidentes de trânsito nas rodovias brasileiras está  mais relacionado com a falta de fiscalização ou com a má formação dos motoristas?

Eduardo Biavati – A tragédia humana que acontece repetidamente há tantas décadas nas rodovias nacionais está relacionada diretamente à Continuar lendo Segurança rodoviária: questões para o debate | Entrevista

“Temos que reequilibrar a distribuição do espaço público” – Entrevista ao DETRAN | RS

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Todos somos pedestres: a maioria de nossas viagens diárias começa e termina a pé. Pedestres correm risco de morte, ferimentos e incapacitações, entretanto, por causa da desatenção às suas necessidades e do favorecimento de meios de transporte motorizados. A cada ano, 270.000 pedestres perdem a vida nas ruas e estradas no mundo. Milhões sobrevivem com ferimentos ou sequelas permanentes. Vamos tornar a caminhada segura para todos? Que tal começar entendendo que a segurança é uma RESPONSABILIDADE COMPARTILHADA?

Acontece de 6 a 12 de maio, a II Semana Mundial de Segurança no Trânsito das Nações Unidas (ONU), dedicada `a seguranca dos pedestres. A Semana visa chamar a atenção para as necessidades dos pedestres; gerar ação sobre as medidas para protegê-los e contribuir para alcançar a meta da “Década de Ação para Segurança Viária 2011-2020” para salvar 5 milhões de vidas.

Sob o lema “fazendo um caminhar com segurança” (making walking safe), a II Semana da Segurança no Trânsito das Nações Unidas mobiliza uma serie de eventos no Brasil e, no Rio Grande do Sul, o DETRAN|RS comandará atividades publicas, campanhas especiais e a participaçao de diversas organizacoes da sociedade civil. Contribuindo para esse esforço, elaboramos uma conversa, em forma de entrevista: Continuar lendo “Temos que reequilibrar a distribuição do espaço público” – Entrevista ao DETRAN | RS

Ciclistas em rota de colisão – reloaded

No dia 14 de janeiro de 2009, uma ciclista, Márcia Regina, morreu atropelada na avenida Paulista.
Ciclista experiente, ela ocupava o lugar correto na via, o mais à direita possível, quase rente ao meio-fio, seguindo na direção do fluxo dos veículos. Não foi o bastante, porém, para escapar de um ônibus que trafegava justamente naquela faixa mais à direita. Ela foi derrubada e terminou esmagada pela roda traseira do coletivo.

No dia 02 de março de 2012, três anos depois de Márcia Regina, outra ciclista, Juliana Dias, morreu praticamente no mesmo local da primeira, na mesma avenida, também massacrada por um ônibus coletivo.

Para as autoridades municipais paulistanas, a nova tragédia foi como um soluço estatístico: a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) tratou de tirar o corpo fora rapidamente e lembrou orgulhosa que São Paulo nunca foi tão SEGURA para os ciclistas. Aos números: em 2010, 49 mortes, em 2009 foram 61 mortes; e 93 ciclistas perderam a vida no já distante 2006. Donde se conclui que… o que mesmo? Nada. Ao menos nada que saibam dizer os gestores da segurança viária na cidade. Morreram menos ciclistas porque choveu muito nos últimos verões? Não me digam que morreram menos ciclistas porque há maior gentileza nas ruas paulistanas. Terá sido porque há mais ciclistas zanzando na cidade? Mais gente pedalando reduz a mortalidade da gente pedalando? Ou será que é tudo reflexo da promoção tão mercantil e simpática quanto inócua das ciclofaixas de lazer dos fins de semana e feriados?

A tragédia inaceitável expõe mais uma vez a omissão gigantesca do Poder Público, em São Paulo e em quase todo o país, em cuidar dos cidadãos mais vulneráveis. Pedestres e ciclistas vivem em rota de colisão – e com eles vai junto muito de nossa civilidade. Cada um que tomba grita que vivemos em cidades hostis, desiguais e desumanas.

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Ciclistas em rota de colisão

No vento e na terra, 1991. Iberê Camargo
No vento e na terra, 1991. Iberê Camargo

No dia 14 de janeiro, uma ciclista, Márcia Regina, morreu atropelada na avenida Paulista.

Ciclista experiente, ela ocupava o lugar correto na via, o mais à direita possível, quase rente ao meio-fio, seguindo na direção do fluxo dos veículos. Não foi o bastante, porém, para escapar de um ônibus que trafegava justamente naquela faixa mais à direita. Ela foi derrubada e terminou esmagada pela roda traseira do coletivo.

O triste caso ganhou repercussão na imprensa, para a qual contribuí com uma entrevista para o jornal Folha de São Paulo. Leia a entrevista, antes de prosseguir. As opiniões ali causaram alguma polêmica, e até uma certa revolta, entre os cicloativistas – uma comunidade realmente ativa na defesa entronizada da bicicleta.

Como nem sempre o que se escreve é o que se lê, vou deixar claro que:

  • Não amo carros, não amo motos,  nem defendo que as cidades sejam o reino da locomoção motorizada. As cidades foram REconstruídas no Século XX para o livre trânsito dos carros – mas isso foi uma OPÇÃO política, aqui e em toda parte; outros caminhos eram possíveis.
  • Não odeio bicicletas, muito pelo contrário. Aliás, não conheço um único ser humano que odeie bicicletas; conheço muitos, porém, que não aprenderam a pedalar, mas gostariam, tenho certeza. A quem interessar, pedalo desde os 5 anos de idade. Cresci indo para a escola e, mais tarde, para o trabalho, em Brasília, todos os dias pedalando. Tenho uma GT full suspension, já um tanto velha-de-guerra, que eu adoro, mas só uso fora de São Paulo, onde vivo hoje. Minha vida de ciclista morreu nessa cidade, mas sobrevive em qualquer outra, quando tenho oportunidade de sair fora.
  • Trabalho com educação para o trânsito há mais de 15 anos. Acredito na educação, portanto, e tenho certeza de que a educação pode realizar verdadeiras revoluções, mas não pode tudo. Imaginar que partilharemos as ruas promovendo a gentileza, o respeito mútuo, a civilidade, a solidariedade, em suma, moralizando as relações no espaço público, é de uma ingenuidade inaceitável.  Falta tudo isso, é verdade, em nossas relações na rua, mas não é por isso que a bicicleta não encontra espaço na cidade. Podemos pensar em segregá-la dos demais veículos, em ciclovias, ou implementar a redução dos limites de velocidade nos centros urbanos. Há muitas opções de ação.

Mudamos as condições materiais reais E mudamos a consciências – uma coisa sem a outra não passa de moralismo vazio.

Ciclista. Iberê Camargo

Esclarecidas as idéias, vamos aproveitar a oportunidade para refletir mais detidamente sobre bicicletas, ciclistas e como ambos estão colocados em rota de colisão na grande cidade. Continuar lendo Ciclistas em rota de colisão