RELOADED: o “Estadão”, sem demagogias

Visto durante anos como símbolo de liberdade e de status, o automóvel passa por lento desmanche de prestígio, especialmente nas grandes cidades.

Como pode sentir-se LIVRE e DIFERENCIADO o proprietário de um veículo que permanece engaiolado durante horas nos gigantescos congestionamentos de trânsito; que está sujeito a RESTRIÇÕES EXASPERANTES de circulação, como os rodízios e os corredores exclusivos de ônibus impostos pelo prefeito paulistano, Fernando Haddad; e que se sente VÍTIMA DE UMA INDÚSTRIA IMPLACÁVEL DE MULTAS?”

Celso Ming, dando singela e cristalina lição de coesão editorial, hoje, no Estadão

* ênfases adicionadas pelo autor desse post

O ‘Estadão’ e a demagogia dos corredores, por Eduardo Vasconcellos

H_20130806_122840Artigo originalmente publicado na página “Ponto de Vista“, do website da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP)

O jornal “O Estado de São Paulo” publicou no último dia 10 de outubro um editorial intitulado “A demagogia da mobilidade“. O texto reclama da reorganização dos corredores de ônibus ora em realização na cidade de São Paulo e a denomina “demagógica”, associando-a aos objetivos políticos do partido que está no poder municipal hoje.

Vou me limitar a comentar as partes do editorial que se referem exclusivamente à ação técnica que está sendo realizada pela Prefeitura. Por mais voltas que dê no seu raciocino, o que está por trás do editorial é o descontentamento pela redução do espaço viário hoje ocupado pelos automóveis. Embora o editorial reconheça a necessidade de melhorar o transporte público o que se percebe nele é uma visão claramente elitista e irritada, ecoando os protestos que alguns usuários de automóvel vêm manifestando por meio da mídia.

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Mortos e Feridos sobre duas rodas. Estudo sobre a acidentalidade e o motociclista em São Paulo

O final do Século XX demarca o início de uma profunda transformação no trânsito de São Paulo.

No final da década de 90, lei municipal impunha a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança, a fiscalização eletrônica de velocidade era adotada e o novo Código de Transito estabelecia penalidades rigorosas às infrações, fiscalizadas por agentes municipais, além da Polícia Militar. O novo quadro legal e institucional produziu um impacto imediato: uma redução de quase 30% das mortes entre 1996 e 1998. Na medida em que essa conquista se consolidava ano após ano, especialmente entre os ocupantes de veículos, entretanto, um novo desafio se colocava à gestão da segurança viária.

Na virada do milênio, a cena urbana congestionada de carros e ônibus passou a contar com um novo personagem: a motocicleta. Até o início da década de 1990, a presença das motos era Continuar lendo Mortos e Feridos sobre duas rodas. Estudo sobre a acidentalidade e o motociclista em São Paulo

As aventuras de Lucky 13

As aventuras do Lucky 13 chegaram ao ponto final, depois de 13 episódios mensais, traduzidos em 11 línguas e lidos por centenas de milhares de leitores.

Produzida pela Associação Européia de Fabricantes de Motocicletas [ACEM], a campanha adotou a linguagem das histórias em quadrinhos (HQ) para aumentar a PERCEPÇÃO DE RISCO de motociclistas e, principalmente, de jovens pilotos de scooters, acerca dos riscos potenciais relacionados com a INFRAESTRUTURA das vias.

É estranho imaginar que as rodovias européias estejam tao ruins assim, ou que as ruas de Roma e Paris estejam em tão mal estado de conservação, mas o fato é que 14 % dos acidentes são causados por falhas na infraestrutura, de acordo com o superestudo MAIDS. Como se não bastassem esses problemas, as necessidades específicas dos veículos de duas rodas são geralmente negligenciadas na engenharia viária, que na Europa e em toda parte ainda pensa sobre APENAS sobre quatro rodas.

Pois bem, diante de tantos hazards (o mundo lá fora não é dos mais amistosos para as duas rodas), o comportamento do piloto em lidar com cada situação e suas escolhas de ação desempenham papel fundamental. A missão do personagem Lucky 13 é representar de maneira cômica justamente as escolhas erradas. A idéia é de um motociclista desligadão, boa praça, mas que escapa sempre por um triz das situações mais perigosas e malucas.

Escrevi sobre o Lucky 13 várias vezes ao longo do ano (ver em especial o post Traffic calming e motocicletas. Novas aventuras do Lucky 13 e também o Lucky 13. Aventura pelos buracos da vida) porque a simplicidade e o pragmatismo da campanha européia foram como um antídoto às idéias ridículas dos defensores tupiniquins da ocupação do “corredor” (a fila entre carros) pelas motocicletas.

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M.A.I.D.S

MAIDS_logoEnquanto escrevia sobre o “corredor” nas últimas semanas recebi um comunicado da publicação da segunda versão do relatório final da pesquisa MAIDS e dos resultados de uma nova análise multivariada dos acidentes fatais registrados no banco de dados dessa pesquisa.

O alerta de uma nova versão do relatório final da MAIDS resgatou o assunto em boa hora. O esforço de pesquisa sistemático, metodologicamente fundamentado, e interinstitucional da MAIDS, é como um antídoto aos argumentos medíocres que se espalharam contra a proibição da circulação das motocicletas no “corredor”.

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HONDA !!

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O que diria o maior fabricante de motocicletas do Brasil sobre o “corredor”?

Não é estranho o silêncio dos fabricantes sobre a polêmica proibição da circulação das motos entre as filas de carros? Ou não há polêmica alguma em jogo? 

Imagino que os engenheiros que projetam as motocicletas e a indústria que as produzem conheçam em profundidade como a máquina deve ser operada para garantir segurança ao seu usuário, bem como as condições além das quais o risco supera a segurança. Isso é o assunto de todo bom manual – aquele livrinho que quase ninguém lê porque tem certeza de que nasceu sabendo.

Fui buscar, então, no manual do Curso Avançado de Pilotagem da Honda, maior fabricante de motocicletas do Brasil, uma resposta. Qual é a estratégia correta de condução da motocicleta no trânsito? O que a Honda tem a dizer sobre o posicionamento da motocicleta na via?

A resposta está lá e é bem simples: o “corredor” não existe como conduta segura de operação da motocicleta. A Honda estabelece claramente qual é o único posicionamento seguro da motocicleta na via: na faixa de trânsito, como qualquer outro veículo.

Com a palavra, Honda san!! 

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+ do “corredor”

 

Poucos dias depois de publicar o post sobre o “corredor”, descobri um comentário tortuoso  que pretende justificar a legitimidade, supostamente jurídica, da circulação das motocicletas entre os carros.

Os lobistas do “corredor” sustentam, como sabemos, que o veto ao artigo 56 do Código de Trânsito, em 1998, foi uma espécie de consagração do conceito da agilidade da motocicleta, “um veículo cujas dimensões o tornam imune aos engarrafamentos“.  

A interpretação interessada dos fatos é que se o Estado não proibiu a circulação de motocicletas entre os carros, então ele a autorizou. A prática do “corredor” é legítima e perfeitamente correta, de acordo com os juristas de plantão, com base em dois argumentos:

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