Para falar da violência no trânsito. Lições from “down under”

Como se mede o tamanho da violência no trânsito? Pelas perdas humanas de cada colisão ou atropelamento: quantificamos os mortos e os feridos. É uma conta que deveria somar zero, ao menos a conta dos mortos, mas está sempre muito longe disso, indicando nossa incapacidade de controlar um fenômeno altamente previsível e, sobretudo, de transformar a realidade que gera o fenômeno.

A bem da verdade, temos conseguido algum avanço. Desde 2004, não somamos menos do que 35.000 mortes por ano no trânsito no Brasil, Continuar lendo Para falar da violência no trânsito. Lições from “down under”

Ata-nos! A segurança dos ocupantes

Uma simples fita de nylon, fixada em três pontos na estrutura do veículo, que passa de um lado a outro da linha do quadril e diagonalmente ao longo do tórax do ocupante, com um único objetivo: retê-lo no assento, em caso de colisão. Conhecemos essa fita pelo nome de cinto de segurança, uma das maiores invenções da indústria automobilística no Século XX.

O cinto de segurança salva vidas e, sobretudo, contribui decisivamente para a redução da gravidade das lesões do motorista e dos passageiros em um acidente de trânsito. A chance de sobrevivência torna-se 50% maior, mas requer uma decisão e uma ação concreta do ocupante do veículo: usar o cinto.

Por muito tempo, o uso do cinto foi uma opção das pessoas e quase não lembramos mais que praticamente ninguém escolhia usá-lo nos veículos brasileiros até 1997. O novo Código de Trânsito Brasileiro catalisou, então, a transformação da letra morta da obrigatoriedade do uso do cinto em uma realidade que se impôs firme pela fiscalização e penalidades rigorosas, somadas à uma ampla campanha de educação. Aprendemos a usar o cinto e, mais do que isso, adotamos um hábito que é repetido hoje por mais de 90% dos motoristas e passageiros do banco dianteiro no país.

O cinto de segurança foi o objeto de uma revolução cultural que salvou a vida de milhares de brasileiros e de mais de 1 milhão e meio de pessoas em todo mundo. A revolução estancou, porém, quando chegou ao terreno do banco traseiro. Pouquíssimos brasileiros o considera importante quando viajam lá atrás – apenas 1 pessoa em cada 10 decide não viajar solta; o resto segue ignorante de que suas chances são 2 vezes maiores de sofrer lesões graves ou fatais e, além disso, agravar os ferimentos do passageiros da frente, mesmo quando estes estão usando o cinto.

Esse é o desafio proposto pela Semana Nacional de Trânsito de 2010 – universalizar a adesão ao cinto de segurança por todos os ocupantes dos veículos. Devemos conquistar os jovens para o uso consciente do cinto, reforçando suas atitudes de autocuidado, e, antes deles, conquistar as crianças, que agora contam com regras precisas para viajar como passageiras no banco traseiro.

A introdução dos dispositivos obrigatórios de transporte de crianças até 7 anos e meio demanda o aprendizado de novas habilidades pelos pais, mas sobretudo os torna objetivamente responsáveis pela segurança da criança no veículo ao longo do seu crescimento. É preciso fomentar essa responsabilidade, torná-los vigilantes das novas regras e, afinal, formadores de futuros jovens para os quais será inquestionável usar o cinto no banco traseiro, nas noites de balada que virão.

Temos a oportunidade, assim, de preencher antigas lacunas e dar um passo além na disseminação do entendimento de que a segurança de cada um depende da segurança de todos – partilhamos juntos uma mesma viagem.

São Paulo, Junho de 2010

Eduardo Biavati

[texto de apresentação da Semana Nacional de Trânsito de 2010, de 18 a 25 de setembro, publicado pelo DENATRAN]

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Os adolescentes que merecemos, por Contardo Calligaris

Frequentemente os artigos semanais de Contardo Calligaris na Folha de São Paulo falam da adolescência. Não é fácil compreender esse período promissor, muitas vezes imerso na angústia da vida. E tudo pode ficar ainda mais complexo e conflituoso quando os pais projetam suas montanhas de desejos e imaginam capturar o movimento de expansão da garotada.

Há algumas semanas, Calligaris criticava a antiga idéia de que há no jovem a “semente” de uma vocação, de uma futura profissão – muito mais uma vocação desejada pelos pais do que pelo jovem. Calligaris fala, então, para o jovem leitor:

“Ser jovem não é ser semente; é ser, antes de mais nada, uma narrativa aberta. Imagine que você é o começo de uma história: havia uma moça Continuar lendo Os adolescentes que merecemos, por Contardo Calligaris

Vocês sabem com quem estão falando? Hábitos e Riscos dos jovens no Brasil

O fim do ensino fundamental é uma festa. É uma despedida de uma demorada infância. Aos 14 anos todo mundo sabe o que quer e do que gosta; escolhe o que come e o que veste – bom, ao menos pensa que sabe e que escolhe, e isso basta para encher a boca e dizer: “a vida é minha”!

É uma época sensacional, para arrepio de professores e pais. Os adultos que sabem tudo, ou pensam que Continuar lendo Vocês sabem com quem estão falando? Hábitos e Riscos dos jovens no Brasil