O Brasil de olho nas ruas de São Paulo

Texto publicado em 03 de setembro, edição Estadão Noite

Desde a introdução das mudanças no Código de Trânsito para a fiscalização do beber e dirigir, em 2008, com penalidades mais rigorosas para o hábito generalizado do consumo de bebidas alcoólicas por condutores de veículos automotores, não testemunhávamos um debate tão intenso sobre o trânsito.

A redução dos limites de velocidade nas marginais do Tietê e Pinheiros arrastou para a arena todas as atenções: engenheiros e especialistas, advogados, gestores públicos, jornalistas, associações civis, profissionais liberais e muitos cidadãos comuns, ocuparam os meios de comunicação e as redes sociais para expressar seu entendimento sobre uma questão que, há seis semanas, cabia em uma placa redonda, geralmente ignorada, espetada em um poste ao longo das ruas e avenidas. Para quem mal falava de velocidade, foi uma avalanche.

A gestão das velocidades é fundamental para a segurança viária, todos concordam. Ninguém duvidou que a chance de sobrevivência em uma colisão ou em um atropelamento depende diretamente da velocidade do impacto: quanto maior, mais severas as lesões. O que muita gente não esperava é que além de fiscalizar o limite de velocidade nas vias, fosse possível ao Poder Público mudar esse limite nas mesmas vias, submetendo-o à prioridade da segurança viária.

Para quem a considerou uma ameaça ao direito individual de circulação na cidade, mero modismo colonizado, mais um factoide midiático, a iniciativa da Prefeitura apresenta, enfim, os primeiros resultados e eles são muito positivos: comparando-se as primeiras seis semanas após a implementação da medida com igual período em 2014, ocorreu menos 27% acidentes com vítimas. Menos mortos e menos feridos, unicamente em função da redução da velocidade, exatamente como previsto e ocorrido em qualquer outra cidade no mundo que tenha decidido assumir a responsabilidade pela segurança na mobilidade. Mobilidade que, aliás, vista sob o aspecto da fluidez que tanto preocupava muitos críticos, aumentou moderadamente em 12%, como também era de se esperar: menores velocidades, permitiram, de fato, uma ocupação otimizada do mesmo espaço viário. Não há notícia, por outro lado, de que a decisão da Prefeitura tenha provocado uma explosão do número de infrações e, por conseguinte, de arrecadação com as multas por excesso de velocidade nesse período, indicando que a maioria absoluta dos condutores simplesmente ajustou seu modo de dirigir à nova regra.

Ao invés do caos, da inviabilidade e da imobilidade na cidade, os resultados iniciais do monitoramento de acidentes e vítimas nas marginais com velocidades reduzidas indicam que é possível avançar na direção de um trânsito mais seguro para TODOS, inclusive para quem se desloca em um automóvel ou motocicleta. Será preciso acompanhar esses resultados ao longo dos meses e é possível, desde já, reforçar a política de gestão das velocidades, abrangendo os motociclistas e, sobretudo, ampliando a comunicação do sentido da ação para toda a população.

Falar sobre as velocidades com que nos movemos foi uma conquista, o começo do enfrentamento de um barreira ideológica e cultural que custou a vida de muitos cidadãos em São Paulo e no Brasil. Melhor do que abrir o debate, foi agir, reassumindo a responsabilidade pela gestão da segurança de todos no trânsito, assim como aconteceu há sete anos quando começamos a nos perguntar qual era o problema em dirigir depois de beber.

Anúncios

Michelin Best Driver 2014 – a conversa com os universitários

Em 2014, o Programa Michelin Best Driver, uma iniciativa inédita do Grupo Michelin, dirigido ao público jovem universitário, contou com a consultoria técnica do sociólogo e a participação em todos os talk-shows que percorreram 15 universidades em oito capitais do país.

O Programa Michelin Best Driver integrou o formato de palestras à dinâmica de uma competição pelo melhor comportamento no trânsito, medido objetivamente por tecnologia de telemetria instalada nos carros dos universitários. Mais do que o repasse de conhecimento, portanto, a experiência promoveu, de fato, a mudança real de condutas que puderam ser quantificadas e a multiplicação da idéia de que juntos podemos salvar milhões de vidas.

Nossa mobilidade conectada: resumo da conversa

Eduardo Biavati e Luis Felipe Pondé conversaram com Felipe Solari sobre Celular e Direção. Um papo que aconteceu dia 05/08, ao vivo via Periscope, no escritório do Twitter, em São Paulo. Veja aqui um pouco do que rolou e assista aos melhores momentos dessa conversa.

Dia 19/08 15h – Gustavo Gitti e Xico Sá conversam sobre Celular e relacionamentos

Dia 02/09 15h – Luis Fernando Correia e Luiz Felipe Pondé conversam sobre Celular e pequenos acidentes

Dia 16/09 15h – Phelipe Cruz e Rafael Cortez conversam sobre Celular e momentos

Dia 30/09 15h – Bia Granja e Daniella Freixo de Faria conversam sobre Celular e criança

Educar para a segurança nas ruas: um projeto para os novos tempos da mobilidade urbana

Essa tem sido uma aventura particular nos últimos tempos – e que aventura não se torna deliciosa ao lado do Ziraldo? Educar para o trânsito ficou pequeno ao lado de quem educa para a rua e para a cidade inteira. Eis o projeto que criamos com a Editora Melhoramentos.

transito.escola-2014-para png.011Para saber um pouco mais, visite a página dedicada ao projeto.

Continuar lendo Educar para a segurança nas ruas: um projeto para os novos tempos da mobilidade urbana

de joelhos, de novo

Captura de tela 2014-04-29 18.48.58

Pobre das montadoras, vivem num sufoco!

O que seria de todas elas sem um Estado forte (debaixo do braço), amigo fiel, sócio de todas as horas?

Pois é,  nossa indústria automobilística está de joelhos – de novo. A isenção generosa de muitos bilhões de reais do IPI foi minguando, o crédito encolhendo, os juros subindo, a Argentina cavando fundo a cova do Mercosul, a classe média emergente emergiu o que dava para emergir, a inadimplência é crescente, e o resultado é que alguém tem que pagar pelo mico do volume de carros em estoque.

Trocando em miúdos, o mico é o seguinte: ou pagam os trabalhadores que perderão seus empregos ou pagamos todos, coletivamente. Não existe a hipótese de a indústria pagar com seu próprio capital.

Tudo se resolverá até maio, segundo notícias recentes, e algumas medidas estão sendo pensadas para restabelecer prazos mais longos de financiamento, um fundo de garantias, além de um aperto nos Argentinos para abrirem as porteiras.

O Governo, parceirão mas durão como sempre, afirma que exigirá uma contrapartida: a indústria terá que reduzir suas margens de lucro dessa vez! É isso aí, vamos acreditar no discurso, mas não seria menos fantasioso se a contrapartida fosse o compromisso de investirem alguns bilhões na implantação de corredores exclusivos de transporte coletivo?

É pedir demais?

um bem imóvel é, ainda assim, um bem simbólico

ETO5845-Editar

Thomas Schmall, Presidente da Volkswagen do Brasil, exultante com o lançamento vindouro do novíssimo fusca do Século XXI, o moderno, econômico e compacto UP, um carrinho sob medida para um país inteiro que virou classe média – e quer viver como tal:

“A ideia é levar mobilidade para muitos brasileiros que ainda não têm condições de comprar um automóvel”.

Na boa, a única idéia da Volkswagen, das auto, é salvar o futuro e a alta margem de lucro da matriz. O capital busca sempre essencialmente sua reprodução ampliada. O resto pouco importa, muito menos a tal da mobilidade. A Volkswagen não vende mobilidade; isso é problema de quem comprou das auto dos seus sonhos.

Brevíssima nota sobre um veto presidencial

5263815401_25cb0eaa18_oAntes que se levantem vozes críticas, expressões de alta indignação, palavras ácidas e algum xingamento esquentado, vamos entender o que a Presidência da República quis dizer com o o veto integral à lei aprovada no Senado Federal que tornava obrigatória a pintura de faixas de pedestres no raio de um quilômetro em torno de escolas públicas e privadas situadas em área urbana. O projeto previa, ainda,  a construção de passarelas ou passagens subterrâneas para dar mais segurança a alunos e demais pedestres que circulam nas proximidades das escolas.

É verdade que o veto parece uma contradição, um passo atrás, quase uma afronta aos esforços nacionais dedicados ao sucesso da “Década Mundial de Ação pela Segurança no Trânsito 2011-2020”, conclamada pela ONU e da qual o Brasil é um alvo central, dada a conhecidíssima e vergonhosa alta mortalidade do trânsito em nossas ruas e estradas. Não se deixe enganar pelas aparências, contudo.

O veto é um recado muito simples aos outros entes da Federação (somos uma República FEDERATIVA, convém não esquecer disso). O recado é que faixa de pedestre na porta de escola é matéria deles, dos Estados e Municípios.

Além do mais, repare que se nem sequer um currículo e um piso salarial nacional dos docentes o Executivo da União consegue impor aos Executivos dos Estados e Municípios, tornar obrigatórias faixas de pedestre em torno de escolas que não lhes compete é mesmo um pó de pirlimpimpim.

A contribuição do Governo Federal à segurança das crianças no caminho da escola tem sido motorizar essa mobilidade, eliminando desse modo o risco de serem pedestres, distribuindo microônibus e ônibus amarelos maravilhosos ao custo de mais de 4 bilhões de reais nos últimos anos. Apenas em 2012, foram entregues 9.283 coletivos, ao custo de R$ 1,8 bilhão – contando-se somente os investimentos federais, um recorde absoluto.

O investimento tem sido grande, como se pode concluir, em uma certa política de geração de renda, produção industrial e mobilidade que, talvez, seja também uma política de segurança no trânsito, a longo prazo.

Registre-se com louvor que, desde 2011, o programa “Caminho da Escola”, comandado pelo FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), vem doando bicicletas, também, para municípios com até 5 mil alunos matriculados na rede pública de educação básica. Havia uma promessa de que 100.000 bicicletas seriam doadas em 2012 – bicicletas e capacetes, é claro, para reforçar a segurança dos estudantes, vejam que bacana – mas tudo isso a depender da AÇÃO das Prefeituras. Ou seja, bicicletas, capacetes, microônibus e ônibus não caem do céu como brindes da União: o poder municipal, se assim bem entender, tem que solicitá-los ao FNDE. Dá um certo trabalho, tem que querer para acontecer.

O veto foi uma resposta, portanto, a algumas velhas questões que nos assolam há tempos e, no caso da segurança viária, um cutucão no misterioso (des)uso dos 95% do total de multas arrecadas no país:

POR QUE Estados e Municipios são incapazes de pintar e manter pintadas faixas de pedestres no entorno de suas escolas, se isso é tão barato e tão normatizado pelos manuais há tanto tempo?