A imprudência

Está no ar a nova campanha do Ministério dos Transportes para a segurança no trânsito rodoviário nacional.

Que surpresa! O gestor máximo da imensa malha rodoviária federal, aquele ao qual está subordinado o DNIT, e a quem compete, por exemplo, a implantação de radares e controles eletrônicos de velocidade, voltou a patrocinar diretamente uma campanha de prevenção de acidentes nas rodovias do Brasil – endereço da morte de METADE dos brasileiros no transito. Bem-vindo de volta, MT!!

Na tela, uma nova abordagem da velha e terrivel im-pru-dên-cia. Quem nunca a praticou, não é desse planeta. Aquela trepada na árvore alta, o salto na cachoeira, a corrida com os cadarços soltos, a cambalhota corajosa na beira da piscina, a feijoada gorda do sábado, o consumo-porre de bebidas alcoolicas, a velocidade acima, bem acima, do limite da via… tudo imprudência, tudo ato de formação de culpa.

Bom roteiro, fraquíssima interpretação e a ocultação de verdades inconvenientes. Sim, a imprudência é um crime – ainda mais quando acontece em um ambiente rodoviário miserável, inadequado e descontrolado. Rodovia no Brasil é o espaço do Deus-dará do trânsito, cada um entregue à sua propria sorte.

O texto correto, e honesto, deveria dizer: “em nossas rodovias, de pista simples, sem acostamento e sem sinalização, sua imprudência pode se tornar um crime”.

COMPARTILHAR responsabilidades – eis a lição da “Década” que primeiro ignoramos.

 

Mortos e Feridos sobre duas rodas. Estudo sobre a acidentalidade e o motociclista em São Paulo

O final do Século XX demarca o início de uma profunda transformação no trânsito de São Paulo.

No final da década de 90, lei municipal impunha a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança, a fiscalização eletrônica de velocidade era adotada e o novo Código de Transito estabelecia penalidades rigorosas às infrações, fiscalizadas por agentes municipais, além da Polícia Militar. O novo quadro legal e institucional produziu um impacto imediato: uma redução de quase 30% das mortes entre 1996 e 1998. Na medida em que essa conquista se consolidava ano após ano, especialmente entre os ocupantes de veículos, entretanto, um novo desafio se colocava à gestão da segurança viária.

Na virada do milênio, a cena urbana congestionada de carros e ônibus passou a contar com um novo personagem: a motocicleta. Até o início da década de 1990, a presença das motos era Continuar lendo Mortos e Feridos sobre duas rodas. Estudo sobre a acidentalidade e o motociclista em São Paulo

Você pagaria a conta de beber E dirigir? Pagaria MESMO?

Como fazer as pessoas pensarem duas vezes antes de dirigir depois de beber, quando ninguém acha isso importante? Mostrando que isso É MUITO IMPORTANTE.
Em 2010, a Ogilvy Brasil realizou uma experiência sensacional em dois bares em São Paulo. Os clientes, jovens em sua maioria, depois de horas de balada e muita bebida, eram surpreendidos ao receber uma conta de até R$73.000, que contabilizava, além de bebidas alcoólicas, todas as despesas referentes aos acidentes causados por motoristas embriagados, como ambulância, UTI, procedimentos cirúrgicos, equipe médica, reabilitação e até cadeira de rodas.

 

O impacto é imediato, divertido, força as pessoas a encararem o preço de suas atitudes e, de quebra, envolve os donos dos bares e os garçons em uma ação proativa de prevenção de acidentes e conscientização dos consumidores. Golaço!!

Retratos do risco quando jovem

Em 2009, o Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN) promoveu um ciclo nacional de palestras dirigidas aos jovens. Essa foi a terceira ação do projeto Trânsito Consciente, que se iniciou com a produção de 20 filmes tratando de diversos temas do trânsito e tomou a forma de um caderno distribuído às milhares de escolas e aos alunos em todo país.

As palestras envolveram cerca de 5.300 estudantes do Ensino Médio das redes pública e particular de seis Continuar lendo Retratos do risco quando jovem

Asterix e sua Motoca. Lições gaulesas de como falar da violência no trânsito

Você conhece a  Shineray ?

Shine-o-que ?

Eu simplesmente não entendi do que as pessoas estavam falando. Em Aracaju, porém, todo mundo sabia. Shineray é um ciclomotor (na verdade, a marca de um fabricante de ciclomotores. Pois é, o mundo não está mais dividido entre Hondas e Yamahas) que em Aracaju e, pelo que soube, em todo Nordeste, vem se transformando na porta de entrada fácil e barata no mundo motorizado sobre duas rodas.

Ciclomotor é uma coisa que deixou de ser bicicleta, mas não chegou a ser motocicleta, coitada, porque seu motor tem menos de 50 cilindradas e sua Continuar lendo Asterix e sua Motoca. Lições gaulesas de como falar da violência no trânsito

As aventuras de Lucky 13

As aventuras do Lucky 13 chegaram ao ponto final, depois de 13 episódios mensais, traduzidos em 11 línguas e lidos por centenas de milhares de leitores.

Produzida pela Associação Européia de Fabricantes de Motocicletas [ACEM], a campanha adotou a linguagem das histórias em quadrinhos (HQ) para aumentar a PERCEPÇÃO DE RISCO de motociclistas e, principalmente, de jovens pilotos de scooters, acerca dos riscos potenciais relacionados com a INFRAESTRUTURA das vias.

É estranho imaginar que as rodovias européias estejam tao ruins assim, ou que as ruas de Roma e Paris estejam em tão mal estado de conservação, mas o fato é que 14 % dos acidentes são causados por falhas na infraestrutura, de acordo com o superestudo MAIDS. Como se não bastassem esses problemas, as necessidades específicas dos veículos de duas rodas são geralmente negligenciadas na engenharia viária, que na Europa e em toda parte ainda pensa sobre APENAS sobre quatro rodas.

Pois bem, diante de tantos hazards (o mundo lá fora não é dos mais amistosos para as duas rodas), o comportamento do piloto em lidar com cada situação e suas escolhas de ação desempenham papel fundamental. A missão do personagem Lucky 13 é representar de maneira cômica justamente as escolhas erradas. A idéia é de um motociclista desligadão, boa praça, mas que escapa sempre por um triz das situações mais perigosas e malucas.

Escrevi sobre o Lucky 13 várias vezes ao longo do ano (ver em especial o post Traffic calming e motocicletas. Novas aventuras do Lucky 13 e também o Lucky 13. Aventura pelos buracos da vida) porque a simplicidade e o pragmatismo da campanha européia foram como um antídoto às idéias ridículas dos defensores tupiniquins da ocupação do “corredor” (a fila entre carros) pelas motocicletas.

Continuar lendo As aventuras de Lucky 13

Lei Seca não reduz mortes de jovens!

calçada | Ipanema - Rio de JaneiroDomingão, primeiro de novembro, véspera do Feriado de Finados. Céu azul, calorzão de 35 graus. A praia promete. Pais e Mães, lêem, então, na capa, manchete principal, do jornal O Globo:

Lei Seca não reduz número de mortes de jovens no trânsito

As mortes de jovens cariocas no trânsito cresceram quase 27 %, comparando-se o período de janeiro a agosto de 2008 (quando a Lei Seca inexistia, na prática) com os primeiros oito meses de 2009 (quando já estava a todo vapor a fiscalização na ruas, através da “Operação Lei Seca”).

Conclui-se, portanto, que o mundo era melhor ANTES da Lei Seca… Ter entre 15 e 29 anos no Rio de Janeiro é mesmo uma barra, brother!!!

A situação nunca foi boa, é verdade. Acidentes de trânsito e agressões por arma de fogo sempre encabeçaram as principais causas de morte da galera. Aliás, não apenas na Cidade Maravilhosa – jovem brasileiro morre de violência. E agora mais essa! Como se não bastasse todo o resto, ainda tem essa Lei Seca para piorar as coisas!  Pais cariocas realmente não têm motivo para dormir tranquilos.

A questão é: o que isso tem a ver com a Lei Seca ?

N-A-D-A

A denúncia de que a Lei é um fracasso justamente entre seus alvos mais importantes, os jovens, NÃO decorre nem das estatísticas, nem de qualquer outra informação, apresentadas pelo O Globo. Por que a Lei deveria ter impedido a morte desses 8 jovens (esse é o número absoluto que corresponde ao crescimento de 27% no período comparado)?

Continuar lendo Lei Seca não reduz mortes de jovens!