um bem imóvel é, ainda assim, um bem simbólico

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Thomas Schmall, Presidente da Volkswagen do Brasil, exultante com o lançamento vindouro do novíssimo fusca do Século XXI, o moderno, econômico e compacto UP, um carrinho sob medida para um país inteiro que virou classe média – e quer viver como tal:

“A ideia é levar mobilidade para muitos brasileiros que ainda não têm condições de comprar um automóvel”.

Na boa, a única idéia da Volkswagen, das auto, é salvar o futuro e a alta margem de lucro da matriz. O capital busca sempre essencialmente sua reprodução ampliada. O resto pouco importa, muito menos a tal da mobilidade. A Volkswagen não vende mobilidade; isso é problema de quem comprou das auto dos seus sonhos.

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TODA a verdade e verdade NENHUMA

Perguntado sobre o crescimento da venda de carros em paralelo aos gargalos de infraestrutura, o Presidente da FIAT, disse ao jornal Estado de São Paulo:

“nós (montadoras) temos um grande sócio (o Estado brasileiro) que fica com 35% da receita bruta. Esses recursos deveriam ser para mobilidade e isso não acontece”.

Cledorvino Belibi

Sócio?!! Pois é, bom saber.

Que sirva de alerta ao comodismo dos gestores do Estado que adoram jogar pra platéia, dizendo que “ouvem o rugido das ruas e dos jovens”, e proclamam que a indústria do carro está matando as cidades, que a motorização nos sufoca, que a prioridade máxima é a bicicleta e o transporte público blá blá blá, nhem-nhem-nhem, etc. e tal.

Fica faltando explicar como é que se equilibram as contas públicas depois que realmente conseguirmos reverter o consumo (e a produção) de carros e motos – se for verdade, ainda que um fiapo de verdade, que seja esse o objetivo último.

Dizer que o “sócio” arrecada mas não usa para “resolver” a mobilidade, por outro lado, é de um cinismo sem fim – pura sacanagem, um pezão no traseiro dos demagogos de plantão.

O ‘Estadão’ e a demagogia dos corredores, por Eduardo Vasconcellos

H_20130806_122840Artigo originalmente publicado na página “Ponto de Vista“, do website da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP)

O jornal “O Estado de São Paulo” publicou no último dia 10 de outubro um editorial intitulado “A demagogia da mobilidade“. O texto reclama da reorganização dos corredores de ônibus ora em realização na cidade de São Paulo e a denomina “demagógica”, associando-a aos objetivos políticos do partido que está no poder municipal hoje.

Vou me limitar a comentar as partes do editorial que se referem exclusivamente à ação técnica que está sendo realizada pela Prefeitura. Por mais voltas que dê no seu raciocino, o que está por trás do editorial é o descontentamento pela redução do espaço viário hoje ocupado pelos automóveis. Embora o editorial reconheça a necessidade de melhorar o transporte público o que se percebe nele é uma visão claramente elitista e irritada, ecoando os protestos que alguns usuários de automóvel vêm manifestando por meio da mídia.

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Segurança, mobilidade e juventude: novas alianças

Resumo da nova palestra apresentada ao “Seminario Nacional sobre Advocacy para ONGs com foco em Segurança no Trânsito, promovido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) e Global Road Safety Partnership (GRSP), em Brasília, nos dias 12 e 13 de agosto.

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participantes do seminário

O foco da palestra é a idéia de que segurança no trânsito é um hábito de saúde que pode ser promovido no contexto do Programa Saúde na Escola do MEC/MS. Transito NÃO É um novo tema transversal; transversal já é o tema da Saúde.

Os dados nacionais de mortalidade e morbidade em acidentes de trânsito, referentes a 2011 e a longas séries históricas, abrem caminho para a apresentação dos novos (e, muitas vezes, ruins) resultados da PENSE e comparações pontuais com dados de 2009 da mesma pesquisa. A quem interessar, escrevi um longo post em 2009, a ser reescrito em breve, quando a pesquisa foi realizada pela primeira vez: “Vocês sabem com quem estão falando? Hábitos e Riscos dos jovens no Brasil“.

Nessa segunda edição da pesquisa, a abrangência foi grandemente ampliada e, agora, além da situação dos jovens nas capitais e DF, os dados são representativos, também, do universo nacional e por Grandes Regiões, de alunos do 9o ano do Ensino Fundamental, da rede pública e privada.

A PENSE nos fornece pistas extraordinárias de novas alianças com a promoção de saúde. Ela ensina a pensar sociologicamente questões que são de natureza sistêmica, histórica e social. Sobretudo, a PENSE indica que devemos pensar além da “segurança no trânsito” e a reconquistarmos a SEGURANÇA NAS RUAS.

Para ler com máxima atenção e toda gravidade possível.

O transporte urbano no Brasil, por Eduardo A. Vasconcellos

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publicado em 18 de junho de 2013: Eduardo A. Vasconcellos: O transporte urbano no Brasil – Le Monde Diplomatique Brasil.

Uma política diferente de mobilidade deveria reduzir os benefícios e subsídios ao transporte individual, garantir espaço nas vias públicas para que as formas não motorizadas e o transporte público tenham qualidade, segurança e prioridade na circulação, e incentivar novas formas de ocupação e desenvolvimento urbano

As maiores cidades brasileiras, assim como muitas grandes cidades de países em desenvolvimento, foram adaptadas, nas últimas décadas, para o uso eficiente do automóvel, o que correspondeu a um projeto de privatização da mobilidade, fortemente associada aos interesses das classes médias formadas no processo de acumulação capitalista. Vários esquemas de financiamento e incentivo mercadológico promoveram grande ampliação da frota de automóveis no Brasil e, mais recentemente, da frota de motocicletas, neste caso atendendo a um público mais jovem e novos grupos em ascensão social e econômica.


Paralelamente, o sistema de transporte público foi crescentemente negligenciado, em uma pedagogia negativa para afastar a sociedade do seu uso como principal forma de transporte motorizado. O transporte público, apesar de alguns investimentos importantes em locais específicos, permaneceu insuficiente e de baixa qualidade e tem experimentado crises financeiras cíclicas, ligadas principalmente à incompatibilidade entre custos, gratuidades, tarifas e receitas, bem como às deficiências na gestão e na operação. Adicionalmente, ele experimentou um declínio na sua importância, eficiência e confiabilidade junto ao público, passando a ser visto como um “mal necessário” para aqueles que não podem dispor do automóvel ou da motocicleta.

A motorização privada da mobilidade trouxe consigo grandes impactos negativos, na forma de aumento dos custos de operação dos ônibus, dos acidentes, da poluição e dos congestionamentos (ANTP, 2011). Como o uso do automóvel requer o consumo de grande espaço físico nas vias, o congestionamento cresceu e rebaixou a velocidade dos ônibus para 12 a 15 km/h, quando o desejável e possível com tratamento adequado é 20 a 25 km/h. Isso levou ao aumento dos custos operacionais dos ônibus entre 15% e 25%, sendo o custo adicional repassado aos usuários pagantes, na maioria com baixo nível de renda: embora o vale-transporte limite o gasto do trabalhador a 6% do seu salário, mais da metade dos usuários não tem acesso a esse benefício. Apenas na cidade de São Paulo, o congestionamento provocado pelo uso do automóvel é responsável por R$ 1,5 bilhão de custos extras repassados por ano aos usuários de ônibus, valor suficiente para construir uma linha de metrô ou dez corredores de ônibus.

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Notas para a próxima década

Não há região do planeta livre da violência do trânsito

Não fuja para El Salvador, não escape para os interiores meditativos da Índia – nem mesmo na gelada Suécia você estará a salvo dela. Em Uppsala, ao norte, suas chances melhoram muito, é verdade, mas lá também acontecem colisões, pedestres são atropelados, ciclistas idem.

A violência no trânsito é uma epidemia global porque ela é indissociável do modo como as sociedades humanas se estruturaram nesse longo tempo histórico da modernidade.

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